Uma noite sem roteiro em Sorocaba — conto
Ficção original: num encontro em Sorocaba, André e Helena deixam o discurso ensaiado de lado para descobrir o que cada um deseja daquela noite.
Nesta leitura
Ficção original. Os personagens, o site mencionado e os acontecimentos deste conto são inventados.
Às nove e dez, André fechou a busca por “sexo casual em Sorocaba” e ficou olhando o próprio reflexo na tela. Tinha trinta e oito anos, uma camisa passada e nenhuma frase que não lhe parecesse ensaiada.
O perfil de Helena num site de acompanhantes havia chamado sua atenção por uma fotografia pouco solene: ela ria, olhando para alguém fora do enquadramento. Na apresentação, dizia ter trinta e cinco anos. Ele lera o texto duas vezes. Agora, na conversa que os dois já haviam começado, ela acabara de fazer uma pergunta que não estava no roteiro dele.
— Você sempre escreve como quem está mandando um currículo?
André apagou “gostaria de esclarecer” e respondeu:
— Só quando estou tentando parecer menos nervoso.
— Não está funcionando.
Ele riu sozinho. A resposta seguinte demorou porque, pela primeira vez naquela noite, não tentou melhorá-la.
— Estou percebendo.
A conversa continuou. Helena estava tomando café, tarde demais para o gosto dela, porque se distraíra com um filme ruim. André perguntou o título. Ela se recusou a dizer.
— Tenho uma reputação a preservar.
— Agora preciso saber.
— Vai ter que suportar essa frustração.
Na noite seguinte, quando se encontraram num café, ela chegou com um livro debaixo do braço. André reconheceu primeiro o riso. A fotografia não lhe dissera como seria ouvi-lo.
— A camisa do currículo — ela observou, sentando.
— Pensei em vir de camiseta.
— Devia ter vindo.
Ele abriu o botão do colarinho. Helena ergueu uma sobrancelha.
— Já é alguma coisa.
André tinha imaginado que falariam de desejo com facilidade. Na tela, as palavras pareciam disponíveis; diante dela, cada uma exigia uma escolha. Ficou mexendo no guardanapo até Helena pousar o livro sobre a mesa.
— Você quer me perguntar alguma coisa desde que eu cheguei.
— Você gosta de encontros assim?
— Assim como?
Ele olhou a xícara, o livro, a mão dela perto da sua.
— Sem a gente saber o que vai acontecer depois.
Helena pensou antes de responder.
— Gosto deste café. Estou gostando da conversa. O resto eu ainda não sei.
André assentiu. Era uma resposta menor do que a que havia imaginado, mas ele podia acreditar nela.
— Eu estava querendo falar de sexo — disse, afinal.
— Então fala. O que você está querendo?
André olhou para a mesa ao lado e baixou um pouco a voz.
— Sexo sem precisar inventar um namoro antes. Mas também não queria passar a noite tentando adivinhar se você está gostando ou só esperando que eu termine de falar.
— Dessa última parte eu posso te avisar.
Ele riu e largou o guardanapo.
— Eu gosto quando a outra pessoa toma a iniciativa. Acho que vim com essa vontade. Aí passei a tarde ensaiando como tomar a iniciativa.
Helena olhou a camisa, ainda com o vinco da dobra na manga.
— Você se preparou para o cargo errado.
— E você? Do que gosta?
Ela girou a xícara pelo pires antes de responder.
— De não precisar representar uma namorada. Tem gente que lê “acompanhante” e chega com uma personagem pronta para mim. Eu prefiro poder dizer que quero uma coisa e não quero outra.
— E hoje?
— Hoje eu quis sentar aqui. Agora quero que você pare de olhar a mesa ao lado cada vez que fala de sexo. Eles estão discutindo uma reforma.
André se virou para ela, vermelho.
— Eu estava pensando num beijo desde que você chegou.
— Isso eu gostei de ouvir.
Ela aproximou a mão da dele sobre a mesa, mas deixou um pequeno espaço entre os dedos.
— Eu gosto de beijo demorado — disse. — E de conseguir ficar quieta perto de alguém sem a pessoa achar que precisa me entreter.
André tinha outra pergunta preparada. Deixou-a para depois e encostou os dedos nos dela. Helena fechou a mão em torno da sua. Ficaram um momento assim, enquanto o homem da mesa ao lado defendia a necessidade de derrubar uma parede.
— Esse silêncio veio com obra — André disse.
— Não se pode ter tudo.
O garçom trouxe a conta. Nenhum dos dois a alcançou imediatamente. Helena abriu o livro, encontrou uma página dobrada e tirou de dentro um ingresso antigo.
— Achei que tinha perdido isso.
— Do filme que você não quer confessar?
— Você vai insistir a noite inteira?
— Provavelmente.
Ela guardou o ingresso na bolsa e lhe contou o título. André conhecia. Pior: tinha gostado.
O riso dela fez duas pessoas na mesa ao lado levantarem os olhos. André, que passara a tarde tentando imaginar como agradá-la, descobriu que já havia feito isso por uma razão bastante embaraçosa.
Do lado de fora, Sorocaba ainda tinha o barulho dos carros e o calor preso na calçada. Helena parou junto dele para procurar a chave na bolsa. Quando a encontrou, não se afastou.
— Posso te beijar? — André perguntou.
— Pode.
O beijo foi breve. André se afastou, mas Helena manteve a mão na dele.
— Eu falei demorado.
— Achei que era melhor começar com uma amostra.
Ela riu e o beijou de novo. Dessa vez, quando se separaram, ele não tentou preencher a pausa. Helena tocou a gola aberta da camisa.
— Melhor assim.
— A camisa?
— Você sem discurso.
Ele segurou a mão que ela ainda não havia retirado. Ficaram ali por mais um instante, perto da porta, atrapalhando ligeiramente a passagem. Então Helena puxou-o para o lado, rindo, e perguntou se ele tinha pressa.
André olhou a rua antes de responder. Não estava procurando uma frase.
— Hoje, não.