As luzes do outro prédio
Conto de ficção original: Joana e Beatriz se conhecem numa assembleia e discordam sobre a árvore entre seus prédios. Organizar uma visita técnica é só o começo.
Nesta leitura
— Cortar — disse Joana, antes que a mulher do outro prédio terminasse de abrir a planta sobre a mesa.
Uma das pontas do papel bateu no copo d’água. A mulher segurou o copo, afastou-o e alisou a dobra com o antebraço.
— Eu ouvi na primeira vez.
— Então por que a remoção não está entre as propostas?
— Porque você está olhando o verso.
Alguém riu na última fila. Joana puxou a folha para si. Ali estavam três retângulos e, dentro de um círculo, a árvore que crescia junto ao muro baixo entre os edifícios Leste e Poente. A passagem do Leste fazia uma curva apertada naquele ponto. Duas placas do piso tinham levantado; por enquanto, uma cadeira de plástico impedia que alguém passasse distraído.
A mulher virou o papel.
— Beatriz, do Poente — disse, apontando para o próprio nome na lista. — E eu prefiro mudar a passagem.
Joana tinha trinta e dois anos e uma fotografia do joelho machucado da mãe no celular. Não pretendia mostrá-la. Mostrou o piso.
— Minha mãe caiu aqui. Ela vem toda quinta.
Beatriz aproximou a tela com dois dedos, sem pegar o aparelho.
— Quando foi?
— Quinta.
A mulher olhou para a cadeira de plástico na fotografia. Já estava lá quando a mãe de Joana caiu.
— Isso precisa ser fechado direito.
— A cadeira ou a questão?
— A passagem. A questão a gente ainda está discutindo.
No fim de uma hora, tinham decidido pagar uma visita técnica, reunir os desenhos dos dois terrenos e abrir os portões para a profissional contratada. Quando perguntaram quem podia acompanhá-la, Joana levantou a mão. Beatriz também. Ninguém mais se mexeu.
No pátio, depois da reunião, Beatriz dobrava a planta pelo lado errado. Joana observou por alguns segundos antes de ajudá-la.
— Essa parte entra.
— Eu sei.
— Está brigando com ela faz tempo.
Beatriz soltou uma ponta. As mãos das duas se encontraram no papel.
— Trinta e cinco anos — disse ela. — Nunca aprendi a dobrar nada que já viesse dobrado.
Joana baixou os olhos para esconder o riso. Do lado do Poente havia um banco largo, inteiro na sombra; do seu lado, a cadeira branca de pernas tortas. A árvore ficava entre as duas coisas.
— Daqui é fácil gostar — disse.
Beatriz acompanhou seu olhar.
— Vem ver do outro lado na quinta. Sem assembleia.
Trocaram números junto ao portão. Joana salvou “Beatriz árvore” e recebeu, antes de entrar no elevador, uma mensagem.
Você ficou com o orçamento?
Fotografou a folha.
Fiquei. Você ficou com a planta.
Divisão equilibrada do prejuízo.
Na segunda-feira, as mensagens tinham horários, nomes de arquivos, confirmação de acesso. Na terça, Beatriz mandou uma foto de uma chave com três etiquetas e perguntou qual abria o portão lateral do Leste.
A que diz NÃO USAR.
Claro.
Trocaram a fechadura e não a etiqueta.
Começo a entender a cadeira.
Joana digitou uma resposta sobre a administração, apagou e mandou apenas uma risada. Depois, sem necessidade, perguntou se Beatriz já tinha conseguido imprimir a planta inteira.
A resposta veio em uma fotografia: quatro folhas coladas sobre uma mesa de jantar; por baixo delas, a borda de um prato.
Consegui. Vou ter que comer o bairro.
Joana ampliou a imagem. Ao fundo havia uma janela acesa de outro apartamento. Reconheceu a própria luminária, inclinada sobre a mesa.
Acho que você mora na minha frente.
Terceiro andar. A janela com a cortina que nunca fica reta.
Joana foi até a sala. Através do intervalo entre os prédios, viu uma mão puxando tecido, primeiro de um lado, depois do outro. Pegou o telefone.
Agora ficou pior.
A mão parou. Beatriz apareceu por um instante, pequena no retângulo iluminado, e fechou a cortina de uma vez.
Na quinta, chegaram ao pátio às oito. Joana levava os documentos numa pasta; Beatriz, a planta enrolada.
— Desistiu de dobrar.
— Tenho outras habilidades.
A profissional passou boa parte da manhã olhando o que as duas já tinham transformado em argumento. Pediu espaço, fez perguntas, anotou. Joana mostrou o trajeto da mãe desde a portaria. Beatriz abriu o portão para o banco do Poente. Nenhuma recebeu ali o veredicto que tinha preparado a outra para ouvir.
Quando ficaram sozinhas, a fita métrica ainda estava estendida sobre o chão. Havia uma alternativa a desenhar: desviar a passagem por duas vagas de visitantes, afastando-a do trecho irregular. A avaliação escrita viria depois.
— Duas vagas — Joana disse.
— Eu sei contar.
— Você usa alguma delas?
— Minha irmã usa. Domingo, quase sempre.
— A minha mãe também precisa chegar.
Beatriz recolheu a fita devagar.
— Estou propondo uma passagem para ela chegar.
— E eu estou tentando saber quem vai pagar por isso.
Foram até a portaria sem conversar. Joana ficou com a pasta apertada contra o corpo enquanto Beatriz devolvia as chaves. Antes de sair, tocou o braço dela.
— Eu não quis dizer que você não se importa.
— Pareceu.
— Eu sei.
Beatriz olhou para a mão no próprio braço. Joana a tirou, mas já sem pressa.
À tarde chegou uma mensagem com dois orçamentos de desenho e obra, ainda preliminares. Beatriz tinha pedido os valores que faltavam. Joana passou uma hora numa planilha, separando o custo que caberia a cada prédio. Mandou de volta.
Você pôs o total em vermelho.
É a cor que o total merece.
Dessa vez, Beatriz ligou. Falaram das contas até não ser mais preciso olhar para elas. Joana descobriu que ela passava o domingo cozinhando para a irmã e reclamava durante a semana inteira das vasilhas que não voltavam. Beatriz soube que a mãe de Joana levava bolo às quintas e, depois da queda, continuara levando, o que a filha considerava uma provocação.
— Você é parecida com ela?
— Fisicamente.
— Só?
— Você está há muito pouco tempo nessa conversa para tomar o partido da minha mãe.
Beatriz riu. Ao fundo, alguma coisa bateu na pia.
— Sexta eu vou fazer jantar. Para mim, a princípio.
Joana fechou a planilha.
— Isso é um convite ruim.
— Estou abrindo a possibilidade de você melhorar.
— Às oito?
— Às oito.
O apartamento de Beatriz cheirava a cebola e pão aquecido. Sem a planta, a mesa era menor do que Joana imaginava. Havia dois pratos diferentes e um pano dobrado sob a travessa.
Ela entregou uma garrafa e ficou com a bolsa no ombro.
— Pode largar em qualquer lugar — Beatriz disse. — Menos nessa cadeira. Essa veio da minha avó e guarda rancor.
Joana escolheu a outra. Na janela, a cortina estava torta.
— Não fala — Beatriz pediu.
Durante o jantar, descobriram que tinham visto o mesmo filme e discordavam até sobre quem havia ido embora na cena final. Beatriz recontou os últimos minutos, apoiada nos cotovelos. Joana sustentou sua versão só para que ela continuasse. Quando Beatriz percebeu, atirou um guardanapo na sua direção.
Depois ficaram alguns segundos sem assunto, ouvindo os talheres de um vizinho pela janela aberta. Joana alisou o guardanapo sobre a mesa.
— Foi bom você ligar ontem.
— Posso repetir.
— Pode.
Beatriz estendeu a mão para pegar a travessa. Joana encostou os dedos nos dela e deixou. A travessa ficou entre os pratos.
Os dois celulares vibraram.
No grupo dos prédios havia uma fotografia escura, seguida por mensagens que subiam depressa. Um galho tinha caído sobre o banco do Poente. Ninguém estava ali. A administradora pedia que se afastassem daquele trecho; um morador dizia que já tinha o contato de quem tirasse a árvore inteira no dia seguinte.
Joana afastou a cadeira.
— Vamos descer.
Beatriz pegou o telefone.
— Estão marcando uma coisa que ninguém decidiu.
— Primeiro vamos ver se fecharam o pátio.
Desceram pela escada. Na porta, Beatriz ainda segurava o pano com que havia tirado o pão do forno. Deixou-o sobre o aparador e procurou a chave.
O galho ocupava quase todo o assento. Sob a lâmpada do pátio, viam-se folhas misturadas à madeira quebrada de uma das réguas. O porteiro afastava dois curiosos. Beatriz parou antes da faixa que ele estendera.
Joana olhou para o banco, depois para ela. Tinha pronta a frase desde a assembleia. Ao abrir a boca, sentiu vergonha da satisfação que viria junto.
— Falta fechar a saída da lavanderia — disse.
Beatriz foi avisar o porteiro. Joana chamou a administradora e pediu que mandasse a fotografia à profissional que fizera a visita. Quando voltou ao portão, Beatriz já tinha enviado uma mensagem ao grupo: o pátio ficaria fechado até a nova avaliação. Logo abaixo, alguém perguntava se ela ainda achava bonita a ideia de manter a árvore.
— Não responde agora — Joana disse.
— Você quer responder?
Joana guardou o celular.
— Eu ainda prefiro tirar.
Beatriz assentiu, olhando para o banco.
— Eu sei.
— Não vou fingir outra coisa porque estava jantando na sua casa.
— Ainda bem.
A resposta saiu dura. Joana recuou meio passo. Beatriz esfregou as mãos nos braços e tornou a falar, mais baixo:
— Mas eu queria terminar aquele jantar.
Elas ficaram junto ao portão até os últimos moradores entrarem. A chave do Poente, dessa vez sem etiqueta, demorou a girar.
Lá em cima, a comida tinha esfriado. Beatriz ligou o forno. Joana recolheu os pratos e ficou lavando os talheres enquanto esperavam, embora não houvesse necessidade. Quando Beatriz se aproximou para pegar um pano, ela desligou a torneira.
— Eu quase disse “eu avisei”.
— Eu vi.
— Foi horrível.
— Ia ser.
Joana olhou para ela. Beatriz segurava o pano com as duas mãos.
— Você não disse.
O forno deu um estalo. Joana tocou de leve a cintura de Beatriz, que veio para mais perto e a beijou. Foi um beijo breve, interrompido por um sorriso que nenhuma soube acomodar direito. No segundo, Beatriz largou o pano.
A nova visita aconteceu na segunda-feira. A proposta escrita que veio depois previa manter a árvore, realizar o trabalho indicado para aquele caso e refazer a passagem longe do trecho danificado. O pátio só reabriria depois da execução e da conferência previstas no próprio documento. Joana leu tudo duas vezes. A alternativa era viável ali; continuava custando mais do que gostaria.
Na reunião seguinte, um morador mostrou no celular uma imagem de vagas vazias e perguntou por que não bastava deixar a passagem fechada. Joana colocou sua planilha sobre a mesa.
— Porque as pessoas precisam entrar.
Apresentou o desvio pelas duas vagas, os valores e as datas possíveis. Quando lhe perguntaram se havia mudado de opinião, não procurou Beatriz na sala.
— Eu votaria pela remoção. Mas, se vamos manter, esta é a obra que precisa ser paga. Não outra cadeira.
Escolheram manter a árvore e aprovaram a obra completa. Os dois prédios dividiram a despesa na proporção combinada naquela noite. Joana ficou encarregada de acompanhar a nova passagem; Beatriz, de reunir os retornos da equipe contratada e informar as datas aos moradores. Antes de levantar, Beatriz corrigiu a ata: as vagas deixariam de existir, não ficariam “temporariamente indisponíveis”. Joana apoiou o dedo na linha até terminarem a correção.
A obra atravessou duas semanas. Elas se viram com pó nos sapatos, num sábado de entrega de material e numa terça em que Beatriz só teve tempo de descer e deixar um pote de comida na portaria do Leste. Algumas mensagens voltaram a ser apenas horários. Outras chegaram depois das onze.
Você dormiu?
Ainda não.
Nem sempre havia uma frase seguinte. Uma noite, Joana ligou.
Quando a passagem reabriu, levou a mãe por ali. A mãe testou o caminho, entregou o bolo e quis saber quem era a mulher que acenava do outro portão.
— Beatriz.
— Eu ouvi você falando desse nome.
Joana fingiu procurar a chave.
Naquela noite, terminou o último e-mail sobre a obra e arquivou a pasta. Da mesa, via uma faixa do caminho novo, o banco reparado e, acima, as janelas do Poente. A cortina de Beatriz estava aberta.
O telefone acendeu.
Vou reivindicar as duas vagas pelo resto da vida, só para você saber.
Joana reconheceu a frase que dissera de manhã. Digitou:
Você está me citando errado. Eu disse nas próximas três assembleias.
Do outro lado, Beatriz apareceu com um prato na mão. Pousou-o sobre a mesa, voltou à janela e ergueu o telefone.
Tem jantar. Nenhum documento.
Joana olhou para a própria cozinha, onde um ovo esperava junto à frigideira. Guardou-o na geladeira.
Dez minutos.
Beatriz leu a mensagem ainda na janela. Fez um sinal de cinco com a mão. Joana respondeu com as duas mãos abertas.
Antes de sair, apagou a luz da sala. Da janela agora escura, viu Beatriz puxar para perto da sua a cadeira que não guardava rancor.