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ContosFicção

Café antes da primeira fornada

Conto de ficção original. Antes de abrir a padaria, Teresa recebe um amigo de infância com um envelope e uma conversa ensaiada. As caixas por montar não estavam nos planos dele.

Equipe ConfidenteX8 min de leitura

A terceira caixa abriu pelo fundo quando Teresa tentou levantá-la. Ela segurou os pães doces contra o peito, amassando o avental, e empurrou a caixa com o cotovelo para cima da bancada. Do lado de fora, alguém bateu no vidro.

— Está fechado.

A pessoa bateu de novo, agora mostrando a palma vazia.

Teresa reconheceu Augusto pela inclinação da cabeça. Apontou para a porta lateral e esperou que ele a encontrasse, sem largar os pães.

— Pega aquela bandeja. Não, a de baixo. Esta está molhada.

Ele obedeceu. Teresa despejou os pães na bandeja, examinou um a um e separou dois cuja cobertura ficara no avental.

— Caixa nova — disse. — Comprei duzentas.

Augusto apertou uma das abas soltas.

— Posso ver?

— Pode montar. Ver eu já vi.

Ele tirou o casaco e procurou onde deixá-lo. Teresa indicou um gancho junto à porta, depois a pia. Enquanto ele lavava as mãos, ela conferiu os pedidos presos numa prancheta. Faltavam vinte minutos para abrir; a primeira fornada de pão francês ainda estava no forno, e os doces assados mais cedo precisavam sair dali em seis caixas que se recusavam a ser caixas.

— Você continua mandando igual — ele disse.

— Hoje estou até delicada.

Aos quarenta e nove anos, Teresa tinha aprendido a reconhecer pelo ruído quando alguma coisa caía na cozinha. O pequeno estalo atrás dela era papelão, não louça. Não precisou se virar.

— Dobra a aba comprida primeiro.

— Quando a gente fazia cabana no quintal da sua mãe…

— A cabana não precisava entregar três dúzias de roscas.

Ele se calou. Ela olhou por cima do ombro: Augusto segurava a caixa contra a luz, com os óculos na ponta do nariz. Aos cinquenta e um, precisava deles para descobrir um encaixe que, antes, teria tentado resolver com força. Desdobrou o fundo e recomeçou.

Teresa voltou à prancheta, mas já não leu a linha seguinte.

Tinham se visto pela última vez nove anos antes, numa mesa de plástico onde ele deixara esfriar um café. Augusto precisava completar o dinheiro de uma mudança. Havia trabalho esperando em outra cidade, um quarto alugado, a passagem comprada; faltava a quantia que ele só conseguiu pedir olhando para a colher. Teresa fizera a transferência no celular. Depois perguntara se queria mais café.

Agora ele depositou uma caixa pronta diante dela.

— Testa.

Ela apoiou a mão dentro e pressionou. O fundo resistiu.

— Essa serve.

Augusto puxou outra. A manga do casaco pendurado roçava o chão. Ele a ergueu e prendeu no gancho antes de continuar.

— Eu vim por uma coisa — disse.

Do bolso de trás tirou um envelope pardo, bastante liso. Teresa ficou olhando para ele com a pinça dos doces na mão.

— Põe longe da comida.

Ele o deixou na ponta da bancada, junto à prancheta.

— Está tudo aí. E uma diferença pelo tempo.

Teresa pousou a pinça, limpou as mãos e abriu o envelope. Contou as notas. Augusto acompanhava os dedos dela como se estivesse sendo contado também.

— Quanto é essa diferença?

Ele disse.

Ela separou a quantia e a estendeu.

— Isso a gente não combinou.

— Nove anos, Teresa.

— Eu sei fazer a conta.

Ele recebeu as notas. Ficou com elas na mão até ela apontar com o queixo para o bolso.

— Vai cair no chão.

Teresa guardou o envelope na bolsa, dentro do armário, e tornou a pegar a pinça. Augusto continuava parado.

— As caixas — ela lembrou.

Trabalharam algum tempo ouvindo apenas o papelão ceder nos vincos. Ele começou a acertar o fundo na primeira tentativa. Ela encheu duas caixas, marcou os pedidos e alinhou as etiquetas viradas para a porta.

— Eu tinha pensado em tanta coisa para falar — Augusto disse.

— Enquanto montava caixa?

— Ontem, no ônibus.

— Você está morando onde?

— Moro a quatro ruas daqui. Desde fevereiro.

A pinça parou acima da bandeja.

— Estamos em outubro.

— Eu passava na esquina. Às vezes via você.

Teresa colocou a última rosca na caixa, devagar, para não encostar a cobertura na tampa.

— Podia ter entrado.

— Sem trazer isso?

Ela largou a pinça de novo.

— Eu mandei uma foto quando pintei a frente. Você respondeu com um polegar.

Augusto alisou uma aba que já estava lisa.

— Achei que você estivesse me lembrando.

— Da dívida?

Ele assentiu.

Teresa olhou para a parede atrás dele. Ainda havia ali uma pequena mancha da tinta verde, no alto do batente, onde a fita de proteção descolara.

— Eu queria saber se tinha ficado bom.

Augusto pousou a caixa inacabada.

Ela foi buscar duas xícaras. A garrafa de café estava num canto estreito, entre uma lata de canetas e o rádio desligado. Serviu a dele sem açúcar e, antes que entregasse, Augusto falou:

— Agora eu ponho meia colher.

Teresa deixou o açucareiro perto da xícara.

— Então põe.

Ele mediu com atenção. Ela bebeu em pé, apoiada na quina da bancada, enquanto o forno estalava atrás dos dois.

— No dia em que você me emprestou — disse Augusto —, eu estava preparado para explicar tudo. Até levei num papel quanto ia ganhar.

— Lembro do papel.

— Você pôs o celular em cima dele e perguntou do café. Eu passei a viagem toda pensando nisso.

— Em quê?

— Que alguém ainda achava que eu ia dar conta.

Teresa passou o polegar pela alça da xícara.

— E deu?

Augusto começou a responder depressa, depois tomou um gole.

— Daquele emprego, não. Durou sete meses. Fiz entrega, trabalhei num depósito. No segundo ano eu já podia ter mandado uma parte.

Ela esperou.

— Queria mandar tudo. Depois queria chegar bem, contar uma história que prestasse.

— E veio de madrugada para eu não ter tempo de perguntar?

Ele olhou para as caixas.

— Um pouco.

Teresa riu uma vez, sem esconder a irritação.

— Escolheu mal. Olha o tanto que ainda falta.

Ele tornou a pegar a caixa inacabada. Dessa vez não procurou uma lembrança do quintal.

— Hoje eu conserto máquina de costura. Na oficina da rua do Mercado, com mais dois. Alugo uma casa pequena. Tem uma amoreira que suja o corredor inteiro.

— Você gosta?

— Da casa?

— Da sua vida, Augusto.

Ele encaixou o fundo, virou a caixa e pensou.

— De algumas partes. Gosto de descobrir o defeito. Não gosto de jantar ouvindo a geladeira. Comprei um rádio, mas aí fico jantando com raiva das notícias.

Teresa baixou a xícara para esconder um sorriso e desistiu de esconder.

— Esse rádio aqui só pega quando ninguém encosta no freezer.

— Posso olhar.

— Hoje não.

— Está bem.

Ela gostou que ele deixasse o rádio onde estava.

O sinal do forno soou. Teresa calçou as luvas e abriu a porta; Augusto saiu da passagem antes que ela pedisse. A primeira assadeira encheu o espaço entre eles de calor. Ela a acomodou no suporte e puxou a assadeira da segunda prateleira.

— Essa ponta está sobrando — disse, olhando a última caixa.

Augusto desfez a dobra. Não tentou disfarçar o erro.

Teresa tirou as luvas e pegou uma das roscas amassadas.

— Quer metade?

Ele quis. Ela partiu com as mãos; a parte maior ficou com ele.

— Você fazia isso — começou Augusto.

Teresa ergueu os olhos.

Ele mordeu a rosca.

— Está boa.

— Pode lembrar. Só não precisa voltar para lá toda vez.

Augusto limpou um farelo do canto da boca. Havia uma pergunta no modo como a olhava agora, sem pressa de encontrar nela a menina que conhecera. Teresa sentiu vontade de tirar a touca, mas continuava em serviço.

— E você? — ele perguntou. — Gosta da sua vida?

Ela olhou para as seis caixas, finalmente firmes, e para o café que já esfriava.

— Hoje eu queria tomar isso sentada.

Ele puxou o banco debaixo da bancada. Teresa quase aceitou. Então bateram na porta da frente: uma mulher com uma sacola dobrada debaixo do braço, seguida de um homem que consultava o relógio.

— Já vai! — Teresa respondeu.

Pôs a xícara na pia, acendeu a vitrine e ergueu a persiana até o fim. A mulher queria o pedido das seis e meia. O homem perguntou se o pão estava quente. Augusto levou as caixas para o lugar que Teresa indicou e recolheu o casaco.

Ela o viu procurando uma brecha para se despedir. Entregou o troco à mulher, pediu um instante ao homem e atravessou o espaço até a porta lateral.

— Você trabalha hoje à tarde?

— Até as cinco.

— Eu saio às duas. Mas às cinco e meia posso estar naquela praça atrás da oficina. Tem banco ou tiraram?

— Tem.

— Levo café.

Augusto abriu a boca.

— O meu — ela acrescentou. — O seu você leva do jeito que toma agora.

Ele sorriu. Teresa ainda segurava o trinco, embora ele não tivesse tentado sair.

— Cinco e meia — disse Augusto. — Perto da banca fechada.

Do balcão, o homem tornou a perguntar pelo pão. Teresa respondeu sem se virar:

— Saiu agora.

Augusto vestiu o casaco. Já na calçada, tocou o bolso onde guardara as notas devolvidas e baixou a mão.

— Até mais tarde, Teresa.

Ela voltou à bancada. Antes de pegar o saco de pão, puxou o banco para longe da passagem e deixou a própria bolsa sobre ele. Abriu o armário alto, onde guardava as coisas que quase nunca usava, e trouxe para a frente a garrafa térmica pequena.