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ContosFicção

O vestido tem bolsos

Conto de ficção original: na prova do vestido para o casamento da filha, Lúcia quer bolsos. Entre alfinetes e lugares marcados, há outra escolha que ela ainda precisa sustentar.

Equipe ConfidenteX11 min de leitura

— Se eu levantar o braço, isso aqui sobe junto.

Lúcia ergueu o cotovelo. A manga de renda puxou o vestido até marcar uma dobra na cintura. Diante dela, a filha inclinou a cabeça, tentando recuperar pelo ângulo o efeito da fotografia.

— Mas você não vai ficar com o braço levantado, mãe.

— Vou abraçar você ou mandar um aceno de longe?

Marisa soltou a manga e se abaixou para recolher três alfinetes que tinham caído. Um quarto ficou preso na sola da sandália. Ela o arrancou com a unha.

— Não mexam mais. Preciso saber onde está o defeito antes de vocês criarem outro.

A costureira tinha um avental aberto sobre a mesa, duas calças esperando barra e um rádio que só funcionava quando a tesoura grande ficava encostada na antena. Tirou a tesoura para cortar um fio; a voz do locutor virou chiado.

Lúcia se olhou de frente. Aos sessenta e dois anos, conhecia a diferença entre uma roupa que precisava de ajuste e uma roupa da qual precisava sair. Aquela tinha a cor de amêndoas sem casca, uma faixa dura embaixo dos seios e nenhuma abertura onde descansar as mãos.

— E os bolsos?

— Nesse modelo não — disse Marisa. — Já falei na terça.

Beatriz ampliou a foto no celular.

— Olha como fica bonito sem nada quebrando a linha.

— Você usaria?

— Não é para mim.

Lúcia esperou. A filha apagou a tela.

— Em você eu achei bonito.

Beatriz tinha trinta e quatro anos e, para o próprio casamento, escolhera um vestido liso, de alças largas, depois de passar uma tarde rejeitando bordados que prendiam no cabelo. A mãe estivera ao lado dela, segurando os cabides recusados. Agora havia mais renda naquele provador do que nas seis lojas que tinham visitado.

— Quero provar o verde outra vez.

— Mãe, faltam dez dias.

— E eu tenho sete barras para entregar hoje — disse Marisa. — O verde está no gancho. Se quiserem discutir, discutam com ele no corpo.

Beatriz abriu o zíper com cuidado para não prender a pele. Lúcia apoiou a mão no ombro da filha ao tirar o pé da saia. Ficaram assim um segundo, numa intimidade antiga e sem cerimônia, antes de cada uma voltar a segurar sua ponta da discussão.

O verde tinha uma saia que se afastava das pernas quando ela andava. Era mais escuro do que Lúcia lembrava. No espelho, o colo aparecia sem a renda que o recortava em quadradinhos.

Marisa prendeu a lateral com dois alfinetes.

— Aqui dá bolso. Vai ter que abrir, fazer o forro e fechar. Não fica pronto antes de quinta.

— Pode ser quinta — disse Lúcia.

— Na quinta eu tenho a reunião do salão — disse Beatriz.

— Eu venho.

Marisa olhou para o relógio redondo, parado havia semanas, depois para o de pulso.

— Depois das quatro. Antes disso vou buscar uma máquina. Não adianta bater.

A filha sentou num banquinho ocupado pela própria bolsa. Puxou a bolsa de baixo do corpo com um suspiro tão cansado que Lúcia quase disse para deixar a renda mesmo.

— Você não gostou de nada que eu trouxe.

— Gostei do sapato.

— Você trouxe o sapato.

Lúcia riu. Beatriz tentou continuar séria e não conseguiu inteiramente.

— Eu queria resolver uma coisa hoje — disse a filha. — Uma. O pessoal do som trocou o horário, seu irmão não responde se vem, a florista quer saber qual branco.

— Pode resolver meu vestido. É este.

Beatriz examinou a mãe no espelho. Aproximou-se, ergueu um pouco o tecido na altura da cintura e deixou cair.

— Com o brinco comprido?

— Com o brinco comprido.

Quando Lúcia saiu do provador, a filha estava ao telefone discutindo uma tomada. Sobre o banquinho, o caderno do casamento ficara aberto numa página de mesas. Havia nomes riscados, setas, um círculo em torno de alguém que não podia ficar perto de outro alguém. Na mesa dois, junto dos tios, estava escrito: mãe.

Ela procurou a caneta presa à espiral.

Beatriz cobriu o microfone.

— Não muda aí, que depois eu não entendo. Me fala e eu arrumo.

Lúcia largou a caneta.

— Depois.

Na quinta-feira, voltou sozinha. Marisa ainda não tinha chegado; a porta estava aberta porque o marido dela trocava uma lâmpada. Lúcia esperou de pé, vendo uma mariposa seca dentro do vidro retirado do teto.

Marisa apareceu com um carrinho de feira e uma máquina embrulhada num cobertor.

— Quatro e dez — disse, antes de qualquer cumprimento. — O homem queria me mostrar todos os pontos. Compro máquina desde antes de ele nascer.

Lúcia ajudou a levantar o carrinho no degrau. O vestido estava pendurado na parede, dentro de uma capa transparente.

Na prova, enfiou as mãos nos bolsos e caminhou até a porta. Voltou. Sentou no banquinho, cruzou as pernas, levantou os braços. Marisa se ajoelhou diante da barra.

— Não puxe para baixo toda vez que senta. Eu acabo marcando torto.

— Cabe o telefone?

— O seu está onde?

Lúcia o pegou na bolsa. A tela acendeu com uma mensagem, e ela a virou contra a palma antes de entregá-lo à costureira.

Marisa colocou o aparelho no bolso direito. O tecido cedeu um pouco.

— Cabe. Um de cada lado distribui melhor. Telefone, chave. Não traga a feira.

Lúcia olhou o retângulo discreto sob a saia. Depois retirou o telefone e leu a mensagem até o fim.

Em casa, abriu a conversa com a filha. Escreveu que precisava acrescentar um acompanhante. Apagou “se ainda der”. Mandou antes de começar outra frase.

Beatriz ligou enquanto ela guardava os brincos numa caixa.

— Acompanhante de quem?

— Meu.

Houve um barulho de gaveta do outro lado.

— Você podia ter me avisado.

— Estou avisando.

— A lista já foi para o salão.

Lúcia apertou o brinco entre dois dedos. Havia uma resposta fácil: não tinha importância, podiam deixar para outra ocasião. Guardou o brinco antes de falar.

— No convite vinha acompanhante. Você perguntou do tio, da sua prima. De mim você não perguntou.

— Porque você nunca…

A filha parou.

— Eu sei — disse Lúcia.

Ouviu Beatriz folhear alguma coisa. Esperou sem ajudá-la.

— Preciso do nome completo para a portaria.

— Vou mandar.

— E você podia me contar essas coisas sem ser junto com uma alteração na lista.

Lúcia sentou na beirada da cama.

— Podia.

Na sexta, Álvaro telefonou quando ela estava tirando o vestido da capa. Aos sessenta e quatro, ele falava depressa no começo das ligações, como se receasse interromper, e depois descobria assuntos que duravam meia hora. Tinham saído duas vezes: uma para almoçar, outra para um concerto em que ele perdera o ingresso dentro da dobra do programa. Ela o encontrara enquanto Álvaro revistava pela terceira vez os mesmos bolsos.

— Confere os bolsos antes de vir — disse Lúcia.

— Estou fazendo isso desde quarta.

Ele ia buscá-la no sábado. Lúcia lhe explicou que chegaria cedo com a filha, mas o esperaria na entrada da festa. Não apresentou desculpas pelo horário nem o encarregou de entender uma família inteira antes de conhecer alguém.

— Você vai ficar à vontade? — perguntou.

— Provavelmente vou esquecer alguns nomes.

— Eu te digo de novo.

No sábado, Beatriz ajudou a fechar o vestido verde. Estava de roupão, com metade do cabelo presa e um grampo entre os dentes. Tirou o grampo para falar.

— Ficou bom.

Lúcia encontrou o olhar da filha no espelho.

— Ficou.

— Quero conhecer ele antes de me puxarem para duzentas fotos.

— Vou trazer.

Beatriz alisou o tecido sobre as costas da mãe. Lúcia tocou os dedos dela, ainda junto ao zíper, e os apertou. Então bateram à porta para avisar que o carro estava esperando.

Álvaro chegou à festa com uma pequena dobra no colarinho. Lúcia teve vontade de ajeitá-la, mas primeiro o beijou. Ele pousou a mão na cintura dela e permaneceu perto depois que o beijo acabou.

— Verde — disse.

— Você tinha outra informação?

— Nenhuma. Estou dizendo que gostei.

Ela ajeitou a dobra.

Beatriz apareceu antes que entrassem. Abraçou Álvaro com o buquê preso entre os dois e precisou recuar para salvar uma flor. Ele disse que estava bonita. Ela respondeu que estava com fome. Lúcia viu os dois rirem e sentiu vontade de ficar ali mais um pouco, mas o fotógrafo chamava a noiva pelo nome.

— Mesa dois — Beatriz disse à mãe, já andando de costas. — Pedi para colocarem vocês juntos.

Na mesa dois havia oito pratos e oito cadeiras ocupadas ou marcadas por bolsas. O cartão de Lúcia estava entre o irmão e uma tia de Beatriz. Álvaro deu uma volta curta em torno do arranjo, procurando o próprio nome.

Uma funcionária consultou as folhas que trazia numa prancheta.

— O senhor está na nove.

A mesa nove ficava junto à porta da cozinha. Havia ali colegas do noivo que Lúcia ainda não conhecia.

— Eu pergunto para a noiva — disse a funcionária.

Lúcia olhou para a filha. Beatriz estava enfim comendo alguma coisa, de pé, enquanto o marido segurava para ela um guardanapo aberto.

— Não precisa chamar.

A funcionária mostrou a folha. Na última linha, acrescentado à mão, vinha o nome de Álvaro. Uma seta levava ao único lugar que sobrara.

— Posso ficar lá — ele disse.

Lúcia já tinha começado a levantar a mão para Beatriz. Abaixou o braço.

— Há dois lugares juntos na nove?

— Só esse. Posso verificar outra mesa.

O irmão de Lúcia puxou a cadeira ao lado.

— Senta aqui enquanto resolve. O rapaz depois vem conversar.

Ela não se sentou.

— Nós vamos jantar juntos.

Álvaro a olhou; Lúcia segurou a mão dele. A funcionária voltou às folhas, passou duas páginas e apontou uma mesa perto da janela.

— Duas pessoas cancelaram na seis. Ainda não recolheram os pratos.

— Ficamos lá.

— Sua filha pediu a família perto.

— Depois eu falo com ela.

Lúcia pegou o próprio cartão. O irmão retirou do encosto da cadeira a bolsa que havia colocado ali para ela guardar e a entregou à mulher.

A mesa seis tinha um casal que discutia a melhor maneira de voltar para casa e duas amigas da mãe do noivo. Lúcia se apresentou, apresentou Álvaro e sentou. Quando a funcionária trouxe o cartão dele, a borda estava molhada: alguém o deixara junto de uma taça.

— Posso providenciar outro.

— Este serve — disse ele.

Lúcia o deitou sobre um guardanapo seco, perto do seu.

Comeram antes que o molho esfriasse. Álvaro contou à vizinha que conhecera Lúcia numa aula de cerâmica e que nenhum dos dois tinha conseguido fazer uma tigela redonda. Lúcia corrigiu: a dela era redonda; o fundo é que deixava passar água. Ele não havia contado aquilo nas duas saídas. Ela cutucou seu braço, e ele acrescentou o fundo à história.

Beatriz veio depois, procurando a mãe entre as mesas.

— Eu disse mesa dois.

— Não cabíamos.

— Era só me chamar.

Lúcia mostrou com o garfo os pratos quase vazios.

— Aqui deu certo.

A filha olhou para o cartão úmido, depois para Álvaro. Abriu a boca, mas alguém anunciou a primeira dança. Beatriz soltou o ar e estendeu a mão à mãe.

— Vem ver.

Lúcia se levantou. Álvaro ficou para terminar o vinho. Ao passar por ele, ela pousou a mão no seu ombro; ele cobriu os dedos dela com os seus por um instante.

Mais tarde, quando a pista já estava cheia, Lúcia voltou à mesa para buscá-lo. Uma funcionária recolhia os copos vazios e juntava os cartões que tinham escorregado entre os pratos. O de Álvaro estava seco, com uma curva no papel.

Lúcia o pegou antes que chegasse à bandeja.

— Vai conferir se sou eu mesmo? — ele perguntou.

— Estou pensando.

Ele se levantou e estendeu a mão. Lúcia dobrou o cartão uma vez, com o nome para dentro, e o guardou no bolso esquerdo.