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ContosFicção

O último lote do bazar

Conto de ficção original: Nando só precisa conduzir um leilão e manter distância de Gustavo. Um lote anunciado errado põe os dois diante da mesma plateia.

Equipe ConfidenteX11 min de leitura

— E agora, uma magnífica máquina de escrever!

Gustavo levantou a caixa transparente que eu acabara de descobrir.

Dentro havia um cilindro de metal, uma manivela e duas peças que pareciam instrumentos de tortura para cenouras.

— Macarrão — disse ele.

Baixei o microfone.

— O quê?

— Máquina de fazer macarrão.

A primeira fila ouviu. A segunda recebeu a notícia com aquele prazer específico de quem pagou por uma noite beneficente e ganhou um pequeno desastre.

Eu tinha trinta e oito anos, uma camisa que pinicava nos sovacos e um plano bastante modesto: apresentar o leilão da Associação Varanda Amarela sem conversar a sós com Gustavo. Até ali, o plano funcionara. Havia uma mesa, nove lotes e quase três anos entre nós. Agora ele vinha contornando tudo isso com uma máquina de macarrão.

— O catálogo está errado — murmurou.

— Percebi pela ausência das letras.

Gustavo pôs a caixa na mesa. Aos quarenta, continuava com a mesma testa séria diante de qualquer coisa desmontável. Reconheci também a camisa azul. Preferi examinar a máquina.

Na folha que eu segurava estava escrito: “Lote 10 — máquina de escrever manual, acompanha acessórios”. Eu mesmo tinha passado a lista a limpo. A palavra “massa”, na anotação da doadora, parecera um nome de fabricante, e o resto eu completara com uma confiança que agora exigia reparação pública.

— Pequena correção — anunciei. — A máquina escreve exclusivamente em italiano e só aceita farinha.

Houve risadas. Gustavo estendeu a mão para o microfone.

Eu o afastei por reflexo.

Ele ficou olhando para a própria mão vazia. Aquilo, infelizmente, também era familiar.

Entreguei o microfone.

— É uma máquina de abrir e cortar massa. O lance anunciado para o outro objeto está cancelado. Vamos conferir os acessórios antes de recomeçar.

Era assim que Gustavo lidava com imprevistos: reduzia-os até caberem numa frase exata. Eu acrescentava uma plateia.

Uma mulher de lenço verde levantou o número vinte e três.

— Eu queria a de escrever.

— A senhora pode continuar querendo — respondi, já com o microfone de volta. — Só não temos.

Ela abaixou o número, rindo. Gustavo virou para o canto, e eu vi a bochecha dele se mexer.

A presidente da associação, Marisa, veio da mesa do caixa com a ficha original. Tinha sessenta e dois anos, um lápis preso no cabelo e, desde as seis da tarde, a expressão de quem gostaria de poder doar alguns voluntários.

— Está tudo aí. A doadora fez uma demonstração ontem.

— E a máquina de escrever? — perguntou alguém ao fundo.

Marisa leu minha folha, depois olhou para mim.

— Essa foi doação do Nando.

Eu fiz uma reverência pequena. Não havia muita defesa possível.

O leilão arrecadava dinheiro para trocar as mesas da sala de oficinas. A minha cedia para a esquerda quando eu apoiava o cotovelo; um argumento de venda que dispensava discurso. Marisa conferiu a caixa conosco, apontou o grampo que prendia a máquina ao tampo e voltou para o caixa, onde duas pessoas esperavam com as compras.

Gustavo encaixou a manivela. Eu peguei o grampo.

— Isso vai aqui.

— Vai embaixo.

— Eu sei.

— Você está segurando ao contrário.

— É uma avaliação preliminar.

Ele não tirou a peça da minha mão. Apontou o encaixe e esperou. Esse detalhe me atrapalhou mais do que se tivesse feito tudo sozinho.

Por anos, Gustavo consertara as coisas enquanto eu ainda contava como tinham quebrado. Uma vez remarcou uma reserva de restaurante porque achou meu horário ruim. Outra, explicou ao encanador o defeito da minha pia comigo ao lado. Eu o chamava de gerente da minha vida; ele ria, até deixar de rir. Quando quase nos beijamos na cozinha dele, eu disse que precisava protocolar um pedido. Ele soltou minha cintura.

Agora eu tinha o grampo encaixado e nenhuma vontade de recordar o resto.

— Podemos usar aquela ponta — ele disse, indicando a mesa.

— A plateia não vai enxergar.

— Se a gente virar…

Puxei a mesa antes que terminasse. As plaquinhas dos lotes vendidos escorregaram, e Gustavo segurou o vaso que servia de peso para as fichas. A água não caiu por um triz.

— Você podia esperar eu acabar a frase.

Disse baixo. Sem sorriso.

Deixei a mesa quieta.

— Podia.

Ele acomodou o vaso no chão. Nós viramos a mesa juntos.

Uma senhora da segunda fila, que se apresentou como Célia, disse ter uma máquina igual. Perguntou se podia subir para mostrar os cortes. Ofereci meu posto com uma generosidade que fez Gustavo baixar a cabeça outra vez.

Célia examinou os acessórios, girou a manivela e declarou que estavam todos ali. Não havia massa para uma demonstração completa. Sugeri passar minha lista pelo cilindro; ela me tomou o papel com a firmeza de quem já tinha criado três filhos, todos adultos, e não pretendia começar de novo.

— O senhor anuncia. Eu explico.

Reabrimos os lances. Gustavo ficou ao lado da mesa, com a prancheta, localizando os números erguidos. Célia explicou a diferença entre abrir a massa e cortá-la. Eu indiquei cada peça quando ela mandou, descobrindo uma vocação tardia para assistente de palco.

— Trinta — chamou Gustavo.

— Trinta pela máquina que acaba de salvar minha carreira.

— Quarenta, número oito.

Eu apontei para o homem errado.

— Oito do outro lado, Nando.

— Temos dois lados. Um evento de grande porte.

Entre um lance e outro, Célia mandou que eu segurasse a caixa. Gustavo sustentou a tampa para ela guardar o cortador. Nossas mãos se encontraram no plástico, e nenhum de nós teve como fazer muito a respeito sem derrubar alguma coisa.

— Sessenta — ele disse, olhando por cima do meu ombro.

Eu continuei olhando para ele.

— Nando.

— Sessenta. Claro.

A mulher do lenço verde tornou a erguer o vinte e três.

— Desistiu da literatura? — perguntei.

— Meu marido cozinha melhor do que escreve.

O marido, ao lado dela, levantou os dois polegares. Gustavo registrou o lance, e eu vi o riso inteiro pela primeira vez naquela noite.

A máquina saiu por noventa. Célia recebeu aplausos; eu recebi minha lista de volta, intacta, o que considerei excessiva delicadeza. Gustavo conferiu o número da compradora antes de me dar sinal para bater o martelo de madeira.

— Vendida.

O som curto encerrou o leilão. Por alguns segundos, pude ficar ali sem inventar a próxima frase.

Depois houve copos para recolher, compras para entregar e uma toalha que alguém guardara com metade dos salgados dentro. Marisa distribuiu tarefas. Eu me ofereci para empilhar as cadeiras, Gustavo para conferir os pagamentos, e voltamos a ter uma distância bastante funcional.

Na quarta pilha, vi que ele ainda olhava para a mesa onde a máquina tinha ficado.

— Faltou alguma coisa?

Ele levantou o grampo.

A caixa já ia em direção à porta, nas mãos do marido da compradora. Fui atrás dele, enquanto Gustavo chamava o número vinte e três por hábito. O homem olhou para a própria camisa, procurando uma identificação que já tinha devolvido.

Entregamos a peça. A mulher do lenço perguntou se os dois vinham junto para instalar.

— Hoje não — respondi.

Gustavo me olhou.

Esperei que o casal saísse para perguntar:

— O que foi?

— Nada.

Ele passou o polegar pela ponta da prancheta.

— Você falou igual à mensagem.

Eu sabia qual mensagem. Ainda assim, levantei uma sobrancelha, oferecendo a ele a oportunidade de desistir.

Não desistiu.

— “Hoje não. Melhor a gente deixar isso quieto.”

Uma cadeira bateu no chão atrás de nós. Voltei para ajudar o homem que tentava carregar seis de uma vez. Gustavo pegou duas; eu peguei outras duas. Levamos tudo para o depósito sem dizer nada. No caminho de volta, ele abriu a porta para mim, e eu parei no vão.

— Você mandou isso depois de eu perguntar se podia passar aí.

— Você tinha feito piada de mim na frente do pessoal.

— Eu disse que você ia me devolver com manual de instruções.

— Eu estava tentando te chamar para jantar.

Saí do vão. Gustavo deixou a porta fechar devagar.

Eu me lembrava do restaurante que ele escolhera, do horário que decidira por nós, de como eu conseguira fazer nossos amigos rirem. Na minha versão preferida daquela noite, só a mensagem dele tinha sido cruel.

— Eu achei que você estava encerrando tudo — falei.

— Eu estava pedindo para encerrar a discussão naquele dia. Não queria você lá ainda bravo.

— E no dia seguinte?

Ele olhou para a prancheta.

— No dia seguinte eu quis que você viesse pedir desculpa sem eu precisar pedir isso também.

Marisa nos chamou. Havia uma diferença no caixa. Durante dez minutos procuramos um pagamento que estava anotado no verso de uma folha. Foi Gustavo quem achou. Não anunciou a descoberta: apenas virou o papel, mostrou a linha e sentou na cadeira mais próxima.

Eu recolhi o microfone, enrolei o fio e o guardei. Meu carro estava no estacionamento. Podia ter ido embora depois de me despedir de Marisa, que já fechava as janelas.

Em vez disso, pedi as chaves do depósito para guardar a última mesa.

Gustavo se levantou.

— Eu pego a outra ponta.

Desmontamos os pés dobráveis sem prender os dedos, uma conquista sobre a qual eu teria feito algum comentário antes. Encostamos a mesa na parede. Ele ajeitou um pedaço de papelão entre ela e a seguinte, para não riscar.

— Eu devia ter pedido desculpa — disse.

Gustavo ficou com a mão no papelão.

— Devia.

— Desculpa por aquela noite. Eu podia ter dito que não gostei de você decidir tudo. Fiz você virar a graça da mesa.

Ele assentiu. Não me ajudou a atravessar o silêncio.

— E eu sumi também — acrescentei. — Não foi só a mensagem. Teve o seu aniversário. Teve aquela vez no mercado.

— Você entrou no corredor de ração.

— Eu nem tenho bicho.

Ele riu, mas o riso terminou antes de responder.

— Eu te vi. Fiquei escolhendo detergente para dar tempo de você sair.

Sentei numa cadeira junto à porta do depósito. Gustavo puxou outra, sem alinhá-la com a minha.

— Eu gostava de resolver as coisas para você — disse. — Mesmo as que você não tinha me pedido.

— Gostava bastante.

— Ainda gosto de resolver coisas.

— Percebi. Você classificou os prendedores da toalha por tamanho.

— Os pequenos não seguram a toalha grossa.

Olhei para ele.

— Tá. Esse é um bom sistema.

Gustavo encostou as costas na cadeira. A manga da camisa tinha descido; ele a dobrou de novo, malfeito desta vez. Eu quis acertar a dobra e deixei a mão sobre meu joelho.

— Quando a Marisa me chamou, eu perguntei se você vinha — ele disse.

Eu tinha passado a tarde supondo que ele fora apanhado de surpresa, como eu.

— Podia ter faltado.

— Podia.

Do salão veio o barulho da última janela. Marisa avisou que ia esperar por nós no portão.

— Eu queria sair com você — falei. — Agora. Comer alguma coisa. Estou com fome desde a máquina de escrever.

Ele baixou os olhos por um instante e voltou.

— Quero. Mas você não precisa apresentar o jantar.

Minha resposta engraçada chegou pronta. Deixei-a esperar.

— Posso tentar.

— E eu posso perguntar onde você quer ir.

— Tem alguma coisa aberta para a esquerda?

— Não sei.

— Então vamos olhar.

Levantamos. Faltavam só aquelas duas cadeiras. Gustavo pegou a dele, eu a minha. Guardamos uma sobre a outra, apagamos a luz e entregamos as chaves a Marisa.

Ela nos agradeceu, conferiu o cadeado e atravessou o estacionamento falando ao telefone. Meu carro estava perto do portão; o de Gustavo, no fundo. Ficamos na calçada, de frente para a rua quase vazia.

— A pé? — ele perguntou.

— A pé.

Eu estendi a mão. Gustavo olhou para ela e depois para mim, como se quisesse ter certeza de que não havia mais nada para carregar.

Segurou.

Antes de começarmos a andar, puxei-o um pouco para perto e beijei o canto da boca dele. Errei por pouco; ele virou o rosto e acertou o segundo.

Fomos para a esquerda. Depois de alguns passos, senti no meu bolso uma quina de papel: a ficha do lote dez, que eu esquecera de guardar. Com a mão livre, amassei a folha até caber melhor.

Gustavo olhou para o bolso.

— Depois me dá isso. Tem que anexar ao fechamento.

— Amanhã.

Ele apertou meus dedos e continuou andando.