A última música do apartamento
Ficção original: na véspera de entregar as chaves de seu apartamento, Helena reencontra André e muda o rumo de uma despedida.
Nesta leitura
Helena tinha deixado duas coisas fora das caixas: um copo e um disco que não era seu.
O copo iria com ela. O disco pertencia a André, e ele havia escolhido aquela noite para buscá-lo, depois de oito meses sem mencionar o empréstimo. Na manhã seguinte, ela entregaria as chaves do apartamento.
Quando a campainha tocou, Helena ainda estava de meias, sentada no chão. Aos trinta e sete anos, mudar de casa lhe parecia menos uma aventura do que uma longa discussão com fita adesiva.
André apareceu com uma sacola de comida e a expressão de quem sabia que precisava explicar a sacola.
— Pensei que você já tivesse guardado as panelas.
— Guardei até o abridor.
— Então acertei alguma coisa.
Ela abriu espaço. Ele entrou devagar, examinando as marcas claras onde antes havia quadros. Tinha quarenta anos e conhecia aquele apartamento o suficiente para procurar uma mesa que já não estava ali.
— O jantar vai ser no chão — Helena disse.
— A vista continua boa.
Ela olhou para a janela. André estava olhando para ela.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois corrigiu o equívoco.
Comeram sentados sobre uma manta, entre uma caixa de livros e outra escrita “cozinha”, embora contivesse uma luminária. André perguntou sobre o apartamento novo. Helena descreveu a varanda, a janela do quarto e o vizinho que tinha se apresentado antes que ela descobrisse onde ficava o elevador.
— Você parece contente — ele disse.
— Estou. Só queria terminar a mudança sem sentir que esqueci alguma coisa.
André olhou para o disco encostado na parede.
— Esse eu vim buscar.
— Oito meses depois.
Ele dobrou a borda da embalagem vazia.
— Não sabia se você queria que eu viesse.
Helena reconheceu a conversa que tinham evitado desde o aniversário de uma amiga: a varanda estreita, uma proximidade interrompida quando alguém chamou os dois para a fotografia. Depois, mensagens cuidadosas demais. Ela respondendo tarde para não parecer ansiosa; ele respondendo pouco porque ela respondia tarde.
— Eu te dei meu endereço novo — disse.
— Pensei que fosse para eu buscar o disco antes.
Ela baixou a cabeça e riu. Não dele. Da precisão com que os dois tinham construído a mesma distância.
— André, você podia ter perguntado.
— Ainda posso?
Helena ergueu os olhos.
— Pode.
Ele demorou. Da rua veio o barulho de uma motocicleta, depois o de uma janela fechando no prédio em frente.
— Você queria que eu tivesse ficado na varanda?
— Queria que a fotografia demorasse mais.
André sorriu, mas não tentou esconder o alívio. Isso a aproximou dele mais do que uma resposta bem ensaiada teria feito.
Helena se levantou e levou o disco até o aparelho, a única coisa ainda ligada junto à parede. Colocou a agulha com cuidado. A música ocupou o espaço que os móveis tinham deixado.
— Você guardou isso por último — ele observou.
— Eu precisava de companhia para fechar as caixas.
Ele se levantou também.
— E agora?
Helena estendeu a mão.
André a recebeu sem uma nova pergunta. Dançaram com pouco espaço entre os pés e espaço demais ao redor. Ela sentiu a palma dele junto às suas costas, firme o suficiente para acompanhá-la. Quando uma meia escorregou no piso, os dois perderam o passo e riram.
— Não lembro de você dançando tão mal — ela disse.
— Na varanda eu estava parado.
— Era uma vantagem.
Ele aproximou o rosto, ainda sorrindo. Helena deixou a brincadeira terminar e o beijou.
Por um instante, esqueceu a fita adesiva presa à manga, a vistoria marcada, o copo esperando sobre o parapeito. Depois voltou a perceber tudo, e gostou de que o beijo pertencesse àquela noite imperfeita.
Quando se afastaram, André tirou a fita da manga dela.
— Você ia embalar isso também?
— Depende. Você cabe numa caixa?
— Prefiro ajudar a carregar.
A música terminou. Nenhum dos dois se moveu até a agulha começar a repetir seu ruído baixo.
Helena desligou o aparelho. André pegou as embalagens do jantar; ela enrolou o cabo e encontrou uma caixa com espaço. Trabalharam lado a lado, passando um ao outro os objetos restantes. Agora havia assunto para depois das chaves.
Na porta, ele levou a mão ao disco.
— Finalmente.
Helena segurou a outra ponta da capa.
— Posso ficar com ele mais uma semana?
— Você nem tem endereço velho para usar de desculpa.
— O novo tem varanda.
André soltou o disco.
Ela o beijou outra vez, antes que ele fosse embora. Depois escreveu “abrir primeiro” na caixa do aparelho e deixou a capa junto ao copo.