Cinco fotografias fora de ordem
Conto de ficção original: numa exposição comunitária, Renata reencontra uma fotografia que julgava descartada — e Sofia, com quem não conseguiu dividir os mesmos planos.
Nesta leitura
Renata desviou de um homem com uma bandeja de copos e voltou três passos. No varal da exposição comunitária, entre a inauguração de uma quadra e um almoço de domingo, estava a fotografia que ela vira cair no lixo.
Uma janela sem cortina, duas cadeiras desencontradas, a ponta amarela de uma trena. Nenhuma pessoa.
Chegou perto o suficiente para reconhecer a mancha no rodapé. A legenda dizia apenas: “Sala, 2017. Acervo de Sofia”.
— Você está na frente da minha mãe — avisou uma mulher.
Renata se afastou. A mãe era a senhora na fotografia ao lado, cortando um bolo. Pediu desculpas à filha e, sem necessidade, também ao retrato.
Aos cinquenta e sete anos, tinha entrado naquele salão para cumprir meia hora de visita e comprar um pedaço de torta. Agora procurava Sofia entre cabeças, painéis e flores feitas de papel. Encontrou-a agachada, recolhendo um pregador.
Sofia se levantou devagar. Aos cinquenta e nove, usava óculos presos numa corrente vermelha; Renata nunca a vira de corrente. O resto veio depressa demais: o jeito de erguer uma sobrancelha, o cabelo cortado rente à nuca, o polegar testando a mola do pregador.
— Você trouxe aquela — Renata disse.
Sofia olhou por cima do ombro dela.
— Trouxe.
— Achei que tivesse jogado fora.
— Tirei do saco depois. Você já estava dormindo.
Um visitante passou apressado e fez o varal oscilar. As duas seguraram o barbante, uma de cada lado, até as imagens pararem.
— A exposição vai até que horas? — Renata perguntou.
— Seis. Mas o café já acabou.
— Continua uma excelente anfitriã.
Sofia sorriu. Renata não. Ainda olhava a janela vazia.
— Não sabia que você viria.
— Nem eu.
Soltaram o barbante. Por um instante, a fotografia ficou inclinada para Sofia.
Em 2018, quando Renata tinha quarenta e nove anos e Sofia, cinquenta e um, a fotografia da fachada ocupava quase toda a mesa da cozinha. A porta era verde. Havia uma bicicleta cortada pela borda e uma placa de aluga-se no vidro.
Renata afastou o açucareiro para não manchar o papel.
— Três anos de contrato — disse. — A proprietária aceitou carência para a reforma.
Sofia fechou o folheto da residência de fotografia. Seis meses fora, seguidos de um percurso por cidades que ela marcara a lápis num mapa.
— Você já respondeu?
— Respondi que fico com a loja.
— A loja.
— A oficina. Você sabe o que eu vou fazer lá.
Renata restaurava móveis na garagem dos outros havia anos. Queria uma bancada que não precisasse desmontar às seis, uma placa com seu nome, espaço para deixar uma cadeira secando sem avisar ninguém. Sofia conhecia cada medida daquele imóvel.
— E o dinheiro da viagem?
— Minha parte vai para a entrada.
A geladeira deu um estalo. Sofia levantou, abriu a porta, olhou para dentro e fechou sem tirar nada.
— Você podia ter me dito antes de responder.
— Podia. E você podia ter me dito antes de confirmar os seis meses.
— Achei que estava combinado.
— Duas semanas estavam combinadas. Nas minhas férias.
Sofia puxou a cadeira. A perna prendeu na borda do tapete, e ela precisou levantar de novo para soltá-la. Renata quase fez a piada de sempre sobre aquele tapete. Guardou-a.
— Não quero passar mais um ano fotografando festa que nem convidada me deixaria entrar — Sofia disse. — Essa bolsa é trabalho. Não é passeio.
— Eu sei.
— Você fala como se eu estivesse abandonando uma coisa séria por uma vontade.
— E você chama minha oficina de loja desse jeito.
Sofia olhou a porta verde na fotografia.
— Eu queria que você viesse.
— Para fazer o quê?
Não havia ironia na pergunta. Renata esperou.
— A gente ia descobrir.
— Você ia trabalhar. Eu ia descobrir o que fazer enquanto você trabalhava.
Sofia passou a mão no folheto fechado, alisando uma dobra.
— Posso voltar no fim dos seis meses.
— E depois?
O mapa ainda estava aberto na sala.
Renata recolheu o açucareiro. Sofia segurou seu pulso, de leve, e ela parou. Ficaram assim junto à mesa, sem que o toque produzisse uma resposta.
— Não quero que você recuse — Renata disse.
Sofia retirou a mão.
— Eu também não quero que você desista daqui.
A fotografia da fachada ficou entre os dois pratos do jantar. Comeram na sala.
Em 2014, Renata, aos quarenta e cinco, sustentava uma bacia sobre a cabeça enquanto Sofia, quarenta e sete, ajustava a câmera no alto da geladeira.
— Se isso for para alguma exposição, eu nego.
— A bacia é muito convincente. Vão reconhecer você.
Tinham se conhecido três meses antes, numa feira de objetos usados, disputando a mesma luminária. Renata queria consertá-la. Sofia queria fotografá-la quebrada. A luminária terminara na casa de Renata, onde já funcionava, e Sofia vinha visitá-la com frequência que o aparelho elétrico não justificava.
Naquela noite, a goteira começara sobre a mesa. Renata subira na cadeira para encostar a bacia no teto, uma providência que Sofia observou com interesse.
— Você pretende segurar até abril?
— Estou tentando descobrir de onde vem.
— De cima.
Renata desceu. Pôs a bacia na mesa e avançou para a câmera.
— Agora você vai aparecer também.
Sofia acionou o temporizador e correu. O disparo pegou uma das duas rindo e a outra com a boca aberta; entre elas, a bacia azul recebeu um risco branco de água.
Foram ver a imagem no visor.
— Ficou tremida — disse Renata.
— Você me puxou.
— Você demorou.
Sofia tinha uma gota presa na sobrancelha. Renata a tirou com o polegar e ficou com a mão no rosto dela. O riso diminuiu sem acabar.
— Posso dormir aqui? — Sofia perguntou.
Renata olhou para o teto.
— Do lado seco.
Mais tarde, já no quarto, ouviram as gotas bater na bacia. Sofia tentou imitar o som. Renata riu contra o travesseiro, pediu silêncio e a puxou para perto.
Na fotografia do quintal, Renata aparecia de costas sob uma cobertura de zinco, a mão aberta contra a parede. Sofia a fizera em 2017, um ano antes da discussão da cozinha. Renata tinha quarenta e oito anos; ela, cinquenta. Visitavam uma casa térrea que a imobiliária lhes entregara para ver sozinhas durante uma hora.
Renata esticou a trena de uma parede a outra. Sofia abriu a janela emperrada usando as duas mãos.
— Aqui cabe a mesa comprida — Renata disse.
— E se a gente deixar sem mesa?
— Para comer em pé?
— Para não decidir tudo hoje.
As duas cadeiras deixadas pelos antigos moradores eram diferentes. Renata colocou uma de frente para a outra. Sentou, testou a firmeza, mudou a segunda de lugar. Sofia fotografou antes que ela terminasse.
No quintal, havia uma cobertura estreita. Renata parou ali mais tempo do que em qualquer cômodo.
— Uma bancada cabia.
Sofia levou a câmera ao olho. Renata encostou a mão na parede para marcar a altura da bancada. Ela tirou a fotografia.
— Você vai pôr tudo na parede? — Sofia perguntou.
— Só as coisas que eu não quiser perder.
— Então reserva um prego para mim.
Não alugaram a casa. As contas exigiam que Renata adiasse a oficina e que Sofia guardasse o dinheiro reservado para tentar a residência. Nenhuma delas gostou de dizer isso à outra. Devolveram a chave numa portaria e foram comer pastel, irritadas também com o pastel, que veio frio no meio.
Na semana seguinte, Sofia espalhou as cópias sobre o chão do apartamento. Separava imagens para uma pequena mostra. Renata, sentada no sofá, entregava os papéis conforme ela pedia.
Quando chegou à sala vazia, Sofia a pôs no monte dos descartes.
— Essa não?
— Não vou mostrar uma casa que a gente não conseguiu alugar.
— Você gostou da foto.
— Não é suficiente.
Renata jogou as sobras num saco. A imagem deslizou por cima de um envelope rasgado, janela para cima.
Naquela noite, depois que Renata adormeceu, Sofia buscou o saco junto à porta. Abaixou-se, retirou a cópia e limpou do verso um farelo de borracha.
Não a guardou com as imagens da mostra. Pôs na gaveta onde ficavam comprovantes, botões e coisas que ainda não sabia onde colocar.
Às seis e dez da tarde, de volta ao salão comunitário, Renata segurava uma cadeira dobrável enquanto Sofia soltava a última fotografia do painel. Uma mesa vista de cima: cinco laranjas, um prato lascado, um quadrado de sol. A legenda trazia o nome de Sofia e o ano corrente.
— Essa é da sua casa? — Renata perguntou.
— É.
— Você comprou uma mesa.
— Não espalha.
Renata recebeu a fotografia. O canto tinha escapado do pregador e se dobrara um pouco. Alisou-o entre dois dedos.
— Ficou por aqui, então?
— Desde março. Aluguei perto da estação. Em novembro vou viajar de novo, mas volto para lá.
— Gosta?
— Da casa, sim. O vizinho aprende trompete.
— Aprende mesmo ou só diz?
— Ainda não tenho provas.
Renata riu. A cadeira se fechou com força entre suas mãos, e Sofia estendeu o braço para ajudar. Não era preciso; Renata a entregou assim mesmo.
Durante os anos separadas, tinham trocado notícias em aniversários, uma mensagem quando a oficina mudara de endereço, outra quando Sofia lançara um catálogo. Naquela tarde, haviam descoberto coisas que não couberam nessas mensagens: Renata contratara uma ajudante e odiava fazer orçamento; Sofia perdera o gosto de dormir em quarto alugado, mas não o de sair para fotografar antes do amanhecer.
— Eu pensei que você tinha voltado porque cansou de tudo aquilo — Renata disse.
— Cansei de algumas partes.
Sofia pousou a cadeira junto das outras.
— Você chegou a se arrepender da oficina?
— Toda vez que preciso cobrar. Do resto, não.
— Que bom.
Renata ergueu os olhos. Sofia estava ocupada enrolando o barbante, mas não tinha dito por educação. Renata reconheceu o cuidado com que ela evitava dar um nó.
— E a casa da janela? — perguntou. — Por que trouxe hoje?
— Pediram fotografias do bairro. Encontrei na gaveta. Agora consigo gostar dela sem fazer conta.
Sofia estendeu a mão para a imagem das laranjas. Renata a entregou.
— Queria te dar a da sala — Sofia disse.
Renata olhou para a cópia, já dentro de um envelope aberto sobre a mesa. Imaginou-a na parede da oficina, perto do calendário. Durante anos, lembrara daquela casa como uma coisa que Sofia não quisera o suficiente. Agora havia também a mulher saindo da cama para remexer um saco de papel.
— Não quero levar — disse. — Mas gostei de saber que ficou com você.
Sofia assentiu e fechou o envelope.
No fundo do salão, alguém perguntou quem ia apagar as luzes. Sofia respondeu que tinha a chave.
Renata vestiu o casaco. Encontrou no bolso um parafuso, tirou-o e tornou a guardá-lo.
— Minha ajudante diz que eu devia parar de carregar peças para casa.
— Quantas cadeiras você monta numa semana, só esvaziando os bolsos?
— Depende da calça.
Sofia riu, e Renata se aproximou. Tocou a corrente vermelha dos óculos, sem puxar.
— Quero te ver outra vez. Sem precisar esperar uma exposição.
— Eu também.
— Posso fazer jantar na quinta.
Sofia demorou um pouco.
— Quinta eu viajo. Volto na segunda.
Renata soltou a corrente. Sofia não baixou os olhos.
— Terça? — Renata perguntou.
— Terça.
Dessa vez foi Sofia quem se aproximou. O beijo foi breve, no salão ainda aberto, com as cadeiras empilhadas e uma vassoura caída perto da porta. Ao se afastar, Renata passou a ponta do dedo pelo batom que ficara fora do contorno.
Sofia guardou as fotografias numa pasta. A da mesa foi a última. Antes de fechar a aba, retirou o papel que cobria seu canto dobrado.
No prato, cinco laranjas: quatro encostadas, uma um pouco distante, todas dentro do mesmo quadrado de sol.