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ContosFicção

Uma raia para cada um

Conto de ficção original: Davi tem um treino para cada terça-feira e pouca paciência para os atrasos de Tomás. Uma prova em dupla muda o que os dois esperam na borda da piscina.

Equipe ConfidenteX11 min de leitura

Tomás entrou na água quando faltavam três segundos para eu sair da parede. A onda bateu no meu queixo; engoli um pouco, perdi o impulso e apertei o botão errado do relógio.

— Tem uma escada — eu disse.

Ele puxou os óculos para a testa.

— Bom dia para você também.

O relógio marcava uma volta de dois segundos. Apaguei. Ele se encostou exatamente sobre o azulejo onde eu apoiava o pé.

Eu tinha trinta e seis anos, nadava naquela piscina de bairro às terças e quintas e levava o treino escrito num cartão dentro de um saco plástico. Não era atleta. Era um homem que gostava de saber quanto faltava. Tomás, trinta e nove, chegara havia um mês e já conseguira se atrasar de maneiras diferentes: sem touca, com a camiseta do avesso, com metade de uma banana na mão. Naquela manhã trouxera tudo. Faltava só perceber que estava no caminho.

— Vou sair agora.

— Então sai.

Olhei para o pé dele. Tomás se afastou.

Fiz a ida depressa demais e voltei irritado comigo, o que considerei uma continuação da culpa dele.

Na quinta seguinte, havia uma prancheta no banco. A professora recolhia inscrições para a prova recreativa do sábado, dali a três semanas: duplas, quatro percursos para cada um, alternados. Quem estivesse esperando entraria na água e só partiria depois que o parceiro tocasse a parede. Ela explicou isso enquanto eu alinhava chinelos, garrafa e cartão.

— Vocês dois ainda não têm dupla — disse.

— Por bons motivos — respondi.

Tomás estava sentado no banco, desfazendo um nó no cordão do calção.

— Eu tenho referências.

— De pontualidade?

— De convivência. Mas morreram todas.

A professora deixou a prancheta entre nós. Eu poderia ter ido embora. Em vez disso, peguei a caneta.

— Sábado você consegue chegar na hora?

Ele parou de mexer no cordão.

— Se a gente combinar, consigo.

Escreveu o nome abaixo do meu, com uma letra pequena que eu não esperava.

No primeiro ensaio, Tomás saiu antes de eu tocar. No segundo, esperou tanto que dei duas palmadas na borda. No terceiro, acertamos, mas ficamos discutindo quem nadaria primeiro.

— Você gosta de começar — ele disse.

— Gosto de não perder tempo.

— Pois é. Eu gosto de terminar. Resolvido.

Quando saímos, ele viu meu cartão. Pegou o saco plástico pela ponta, sem abrir.

— Você plastificou a diversão.

— É para não molhar.

— Está funcionando. Não tem nenhuma aqui.

Tentei arrancar o cartão da mão dele e acabei rindo. Tomás me entregou aquilo com uma expressão tão satisfeita que resolvi calçar os chinelos antes de olhar de novo.

Na semana seguinte, chegou seis minutos atrasado. Eu já havia feito duas séries sozinho.

— A loja não fecha sozinha — disse, deixando a mochila no banco.

Foi assim que soube da assistência de eletrodomésticos, a seis quadras dali, e do cliente que chegava às seis e vinte e oito jurando que era só uma pergunta. Eu saía do escritório às cinco e quarenta, guardava o carro, pegava a mochila pronta. Não contei essa parte como se fosse uma solução.

— Você podia avisar — falei.

— Não tenho seu número.

Procurei o celular com a mão ainda molhada. Tomás ficou me olhando.

— Depois do treino, Davi. Eu já cheguei.

Fiquei com o nome dele na tela pelo resto da noite. O primeiro recado veio às nove e dez: uma fotografia do tênis, da touca e dos óculos em cima de uma cadeira. “Conferência de material. Favor aprovar.” Ampliei a imagem. Havia uma meia pendurada no encosto e um pedaço de mesa com verniz gasto. Respondi que faltava o calção.

“Era teste. Você passou.”

Passei a esperar o barulho da porta de ferro. Quando ele chegava, eu fazia questão de olhar para o relógio, embora já soubesse a hora. Tomás fazia uma reverência curta, só para mim, antes de pôr a touca.

Num ensaio, a borracha dos meus óculos soltou de um lado. Eu xinguei, tentei prender de novo e não consegui enfiar a tira na presilha. Ele pediu com a mão. Entreguei.

Tomás se sentou no banco, aproximou a peça do rosto e trabalhou em silêncio. Sem a touca, tinha uma faixa de cabelo achatada sobre a orelha. Eu quis ajeitar. Enfiei o polegar sob a alça da minha mochila.

— Você franze a testa até consertando uma coisa — eu disse.

— E você fiscaliza até um conserto de graça.

Ele me devolveu os óculos e tocou com o indicador o ponto em que a tira entrava.

— Aqui. Não puxa desse lado.

Na mesma noite, perguntei se ele queria comer alguma coisa depois do treino seguinte.

— Quero — respondeu. — Se você não levar cronômetro.

Levei, no pulso. Ele não comentou. Comemos pastel numa lanchonete de mesas presas ao chão; o joelho dele esbarrou no meu por baixo da mesa e nenhum dos dois encontrou uma posição melhor. Quando chegou a conta, estávamos discutindo se valia a pena consertar uma torradeira antiga. Não ouvi metade dos argumentos.

Na saída, Tomás perguntou:

— Terça a gente repete?

— O treino?

Ele me olhou por um instante.

— Também.

Na terça, eu errei a contagem.

Depois do terceiro percurso de Tomás, era minha vez de partir. Fiquei na parede, convencido de que tinha terminado. Ele continuou dentro d’água, esperando que eu saísse, enquanto eu tirava os óculos.

— Mais um, Davi.

— Já fiz quatro.

Ele mostrou três dedos. A professora confirmou do outro lado.

Nadei a última ida e volta prendendo a raiva nos dentes. Na volta, tentei compensar tudo de uma vez, engoli água e precisei parar. Segurei a raia. Demorei a ouvir Tomás me chamando da parede.

Terminei devagar. Ele saiu para o trecho dele; eu fiquei olhando a marca do meu polegar na borda até ele voltar.

— Fechou — disse, ofegante.

— Ficou péssimo.

— Aquela parte, sim.

Eu esperava que negasse. Ele passou a palma pelo rosto, tirando a água.

— Quer fazer só as trocas na quinta?

— Tenho que ver.

Saí sem o pastel. Em casa, abri os tempos no relógio e fechei antes que a tela terminasse de carregar.

Na quinta, mandei uma mensagem sobre uma planilha atrasada no trabalho. A planilha existia. O atraso, também. Às seis e meia eu já estava no sofá, com a mochila ao lado e os tênis calçados.

Tomás respondeu: “Tudo bem. Sábado às oito?”

Escrevi que talvez fosse melhor ele procurar outra pessoa. Minha regularidade não estava boa. Eu podia atrapalhar. Talvez a distância fosse demais depois de uma semana puxada.

Ele demorou onze minutos.

“Entendi. Podia ter falado antes.”

Digitei que não era nada com ele. Apaguei, porque parecia que eu estava encerrando alguma coisa e eu só queria não ter de chegar àquela parede sob o olhar dele.

Na sexta, fui buscar os óculos que havia esquecido no armário. Tomás estava na piscina, nadando sozinho. Sentei no banco com a mochila entre os pés. Ele me viu na volta e parou, mas não levantou os óculos.

— Veio deixar seu substituto?

— Não.

Esperei. A água fazia um ruído curto dentro da canaleta.

— Você conseguiu alguém?

— Não procurei.

Eu tinha preparado uma explicação sobre o trabalho. Tirei os óculos da mochila, dobrei a tira, estiquei de novo.

— Quando eu parei na terça…

— Eu estava lá.

— Pois é.

Ele apoiou os cotovelos na borda. Pela primeira vez, parecia sem pressa de me ajudar.

— Eu não queria que você ficasse me esperando daquele jeito de novo.

— Que jeito?

— Sem eu chegar.

Tomás passou a língua pelo lábio.

— Achei que você estava arrumando um jeito de não sair mais comigo.

— Eu quero sair.

Falei alto. Um homem no banco do fundo levantou a cabeça e tornou a procurar alguma coisa na mochila.

— A parte de nadar está me dando vontade de sumir — acrescentei.

Tomás tirou os óculos, enfim.

— Você podia ter dito a segunda frase junto da primeira.

— Estou dizendo agora.

— Está.

Ele olhou para a outra ponta da piscina.

— Eu não gostei de ficar tentando entender sozinho.

Assenti. Não havia uma resposta espirituosa que servisse ali.

— Desculpa. Posso ir amanhã?

— Comigo?

— Com você.

Tomás puxou os óculos de volta para os olhos.

— Então entra. Quero ensaiar a espera.

Ri, mas ele continuou sério por mais um segundo. Depois afastou o pé do azulejo.

No sábado, cheguei às sete e quarenta. Tomás já estava lá, com dois copos de café e uma camiseta com a gola frouxa. Entregou um copo sem mencionar a hora. Eu tomei um gole e queimei a língua.

Na chamada das duplas, fui buscar a prancheta. Conferi os nomes. O meu tinha um risco no fim da última letra, feito quando a caneta falhara. Passei o dedo ao lado, sem tocar.

Tomás percebeu.

— Ainda somos nós?

— Ainda.

A piscina parecia outra com gente de sapato em volta. Havia sacolas nos bancos onde eu arrumava minhas coisas, alguém testando um apito, uma mulher chamando um competidor pelo nome inteiro. Guardei o cartão no fundo da mochila.

Na primeira saída, fui depressa. Na segunda, já sentia o esforço da primeira. Tomás tocava a parede com a mão aberta, inteira, e eu esperava ver a palma antes de partir.

No meu último trecho, procurei a linha escura do fundo. Cheguei à outra ponta, virei e perdi a conta de quantas braçadas faltavam. A mão procurou o relógio por hábito. Deixei-a voltar para a água.

Quando ergui o rosto perto da chegada, Tomás estava abaixado na parede. Não gritava. Tinha o braço estendido sobre a borda, deixando livre o azulejo do meu pé.

Toquei. Ele partiu.

Fiquei ali ouvindo a água bater nos meus ouvidos. Quando consegui sair, andei ao lado da raia até a outra ponta, depois voltei, acompanhando aquele homem que nunca trazia uma toalha suficientemente grande. Na chegada, me agachei. Minha voz saiu falhada quando disse o nome dele.

Tomás segurou a borda e olhou para cima.

— Acabou?

— Acabou.

Ele ficou mais um instante na água, sorrindo com a boca aberta, tentando recuperar o fôlego. Estendi a mão. Ele a apertou antes de ir até a escada.

Depois do banho, sentamos no banco perto da saída. Tomás esfregava o cabelo com sua toalha pequena. Na parede, a professora prendia a folha dos resultados; a fita não pegava no reboco.

— Vai lá — ele disse. — Eu espero.

Eu me levantei. Dei dois passos e voltei para buscar a mochila. Tomás começou a guardar a toalha.

— Tenho uma coisa para te perguntar — falei.

— Pode falar.

Do lado de fora, um carro apitou duas vezes. Eu podia convidá-lo para comer. Já sabia fazer isso.

— Na terça você me ensina a abrir uma torradeira?

Ele ficou com a toalha no ar.

— Uma torradeira?

— Ou outra coisa. Vou à loja quando você fechar. Se puder.

— Você não tem uma torradeira quebrada, Davi.

— Eu sei.

Tomás baixou a toalha devagar.

— Tenho um rádio que estou mexendo faz duas semanas. Ainda não descobri.

— Posso segurar alguma coisa.

Ele veio para a ponta do banco. O joelho encostou no meu, agora sem mesa em cima.

— Pode não ficar pronto na terça.

— Eu volto.

Tomás segurou a alça da minha mochila, que escorregava do ombro. Eu me inclinei e parei perto do rosto dele. Foi ele quem fechou a distância.

O beijo durou pouco. Ao nos afastarmos, a professora pediu licença para alcançar a tomada atrás do banco. Tomás recolheu a perna; eu bati a mochila na parede. Ficamos de pé, atrapalhados, e ele começou a rir primeiro.

Saímos juntos. Na calçada, perguntei a que horas a loja fechava.

— Seis e meia. Mas pode aparecer antes.

Na terça, às seis e vinte, Tomás levantou os olhos quando entrei. Havia peças sobre um pano claro e um rádio aberto no balcão. Deixei a mochila no chão.

Ele puxou um banco para perto do seu e me entregou a tampa.

Segurei com as duas mãos.