O bolo de sexta-feira
Conto de ficção original: Caio encomenda o bolo favorito de Cecília para celebrar uma promoção. Ao chegar em casa, descobre a parte da notícia que ainda não ouviu.
Nesta leitura
Caio precisou apoiar a caixa do bolo no joelho para encontrar a chave. Por dentro da porta, Cecília disse alguma coisa sobre não caber, e ele respondeu que dava um jeito. Só quando entrou percebeu que ela estava ao telefone.
— Eu disse que preciso pensar. Segunda eu converso com você.
Ela desligou. Na mesa da cozinha havia um caderno aberto, uma cebola descascada e os óculos que procurava desde quarta.
— Achou — ele disse.
Cecília acompanhou seu olhar.
— Estavam na bolsa menor.
Ele levantou a caixa. Tinha ensaiado uma entrada mais festiva no elevador, mas a alça cortava seus dedos e ela continuava com o telefone na mão.
— Coco com abacaxi.
— Você comprou bolo?
— Encomendei. Quando chegou sua mensagem.
Às três e vinte, ela escrevera: “Me ofereceram a gerência. Te conto em casa”. Caio, aos quarenta e três anos, ainda era capaz de ligar para uma confeitaria antes de terminar de ler uma mensagem. Perguntara o tamanho menor e, diante da resposta, pedira o seguinte. Cecília gostava daquele bolo até no café da manhã, em pé, com a porta da geladeira aberta.
Ela puxou uma cadeira, mas não se sentou.
— É em outra unidade.
— Onde?
— Curitiba.
Caio baixou a caixa até a mesa. A base tocou o caderno e fez a caneta rolar.
— Ah.
— Pois é.
Ele recolheu a caneta do chão. Continuou agachado um segundo além do necessário.
— Mas você aceitou?
— Não. Por isso eu disse “ofereceram”.
Na tampa, uma janela transparente exibia três flores amarelas de açúcar. Ele não as tinha pedido. A moça perguntara se era comemoração e ele dissera que sim.
— Tem gente vindo? — Cecília perguntou.
— Não.
Ele quase acrescentou “claro que não”, embora tivesse aberto a conversa com a irmã dela e digitado “adivinha”. Não chegara a enviar.
Cecília passou as mãos no rosto, levantando a franja.
— Desculpa. Eu gostei do bolo.
— Nem comeu.
Ela olhou para ele, e Caio sentiu a aspereza da própria resposta. Tirou a caixa da mesa.
— Vou guardar.
A geladeira estava cheia de potes baixos com quantidades de comida que nenhum dos dois considerava suficientes para uma refeição, mas que também não autorizavam jogar fora. Ele empilhou dois, tirou uma garrafa, mudou a manteiga de lugar. A caixa continuou sem caber.
— Precisa tirar a prateleira — ela disse.
— Eu sei.
Não sabia. Puxou a prateleira na direção errada, bateu no suporte e ouviu Cecília se aproximar. Ela segurou a porta; ele finalmente ergueu o vidro.
Agora havia um bolo ocupando quase metade da geladeira.
— O jantar era abobrinha com arroz — ela disse.
— Continua podendo ser.
— Você quer cortar?
Caio lavou as mãos. Ela lhe entregou a abobrinha e pegou a cebola. Trabalharam na mesma bancada, os cotovelos esbarrando uma vez, depois evitando o encontro.
— Quando seria? — ele perguntou.
— Daqui a seis semanas. Se eu aceitar.
Ele cortou três rodelas grossas. Na oficina, seis semanas eram a estante da cliente que finalmente escolhera a madeira, as portas do restaurante e a bancada nova que montara com Davi no sábado anterior. Eram coisas já medidas, algumas já pagas. Não havia como colocá-las no porta-malas e acabar em outro lugar.
— Eu acabei de renovar o aluguel.
— Eu sei.
— Por dois anos.
— Eu estava lá quando você assinou, Caio.
Ele alinhou as rodelas para cortar de novo.
— Estou tentando lembrar o que tem aqui.
A faca dela parou.
— Eu também tenho coisa aqui.
Ele queria dizer que não era isso. Não encontrou uma frase que não começasse por explicar a ela o que ela deveria ter entendido.
Cecília levou a cebola para a panela. Caio esperou o chiado baixar.
— Você quer o trabalho?
Ela mexeu a panela antes de responder.
— Quero conhecer a equipe. Quero saber se vão me deixar escolher alguém ou se vou só herdar os problemas. E quero o salário, sim.
— Eu não falei nada do salário.
— Eu sei. Estou falando.
Ela abriu o armário, procurou o arroz na prateleira onde nunca ficava e fechou a porta.
— Tenho quarenta e seis anos. Passei os últimos três treinando gente que foi chefiar outro lugar. Hoje me chamaram pelo meu nome, sem pedir que eu preparasse alguém antes.
Caio conhecia os nomes de duas dessas pessoas. Conhecia também a voz com que Cecília dizia “foi um dia normal” e depois adormecia no sofá ainda segurando o controle. Quis recuperar a alegria das três e vinte, aquela facilidade de ficar feliz por ela sem precisar imaginar sua escova fora do copo.
— Isso eu queria comemorar.
Cecília virou o rosto. Havia um pedaço de cebola preso à colher.
— Eu também. Na sala da reunião, eu fiquei feliz. Depois comecei a fazer conta até de panela.
Ela olhou para a que tinha na mão.
— Esta vai comigo. Já estou avisando.
Ele riu, apesar do susto que sentiu com o verbo.
O interfone tocou.
Caio atendeu com a faca na outra mão. O porteiro perguntou se a caixa de lâmpadas que um entregador deixara era deles.
— Não pedi lâmpada.
Cecília apontou para si.
— Ela pediu.
Quantas caixas? Caio não sabia. Qual o nome completo? Disse o dela. Houve uma conversa abafada lá embaixo, um arrastar de papel.
— Apartamento cento e vinte e quatro? — o porteiro perguntou.
— Quarenta e dois.
— Então não.
Caio desligou.
— Suas lâmpadas continuam desaparecidas.
— São duas.
— As do cento e vinte e quatro parecem muitas.
Ela encostou a colher na borda da panela e riu. Ele ainda estava sorrindo quando voltou à tábua, onde todas as rodelas tinham tamanhos diferentes.
— Vai cozinhar em três prestações — ela disse.
Caio separou as maiores.
— Serviço artesanal.
O arroz já estava no fogo quando ele conseguiu falar da oficina sem mencionar contrato.
— Eu gosto de ir para lá.
Cecília reduziu a chama.
— Eu sei que gosta.
— Não só porque deu trabalho montar. Agora eu chego e sei o que vou fazer. Tem coisa minha lá. Não estou esperando surgir outra coisa.
Ela se apoiou na pia. Ele sentiu vontade de acrescentar que podia largar, que descobriria alguma solução, uma frase grande o bastante para fazê-la voltar a cortar cebola ao seu lado. Mas imaginou a bancada recém-montada, o rádio ruim que Davi se recusava a trocar, a luz da manhã sobre uma porta ainda sem verniz. Ficou quieto.
— Eu não quero fechar — disse por fim.
Cecília assentiu uma vez.
— E eu não quero recusar hoje.
Caio pousou a faca.
Por alguns segundos ouviu a tampa da panela vibrando. Achou que ela fosse dizer que podiam morar separados durante a semana, e se preparou para achar impossível. Ela não disse.
— Você tinha pensado em ir sem mim? — perguntou.
Cecília puxou a cadeira e se sentou.
— Pensei em você indo. Depois pensei em você lá, detestando tudo e dizendo que estava ótimo.
Ele começou a negar e parou. Já se vira procurando uma oficina menor numa rua que não conhecia, tentando gostar depressa.
— Eu posso detestar falando.
— Pode. Você fala bastante.
Ele puxou a outra cadeira. Entre os dois, a cebola deixara uma película fina sobre a madeira.
— Também pensei em ir primeiro — ela continuou. — Alugar alguma coisa por um tempo. Mas não sei se quero viver de mala. Passei a tarde querendo e não querendo a mesma coisa. Cheguei aqui e tinha uma festa na geladeira.
— Não tinha ainda. Deu um trabalho guardar.
Ela baixou a cabeça. Caio viu seus ombros se moverem e, quando ela tornou a olhar para ele, ainda ria, mas passou o dedo debaixo de um olho.
— Eu não sabia se precisava ficar feliz para você.
— Pelo bolo?
— Também.
Caio olhou para a geladeira fechada. Lembrou-se de dizer à moça que caprichasse.
— Eu devia ter te ligado.
— Devia.
Ele aceitou a palavra sem procurar uma menor.
O arroz começou a estalar. Cecília se levantou depressa, destampou a panela e pingou água. Caio levou as abobrinhas ao fogo. Jantaram tarde, com parte do arroz agarrada ao fundo e um pano dobrado debaixo da travessa quente.
No começo falaram só da comida. Depois Cecília contou que lhe haviam mostrado a sala por uma chamada de vídeo. A janela ficava atrás da mesa; ela passara metade da conversa vendo uma silhueta e fingindo que enxergava a expressão do homem.
— Pergunta se a janela está incluída na promoção — Caio disse.
Ela empurrou com o garfo uma rodela ainda firme.
— Na segunda vou pedir para ir lá. Antes de responder.
— Quanto tempo deram?
— Até sexta.
Ele fez a conta dos dias olhando para o calendário preso ao armário. Na terça chegava a madeira. Quinta seria possível, talvez.
— Você quer que eu vá?
Cecília mastigou antes de responder.
— Para a reunião, não. Preciso conseguir ouvir o que eles estão oferecendo sem olhar para a sua cara a cada frase.
Caio baixou os olhos para o prato. A resposta doeu num ponto pequeno e preciso.
— Tá.
— Mas queria voltar e te contar. Sem você já ter encontrado um motivo para não dar certo.
Ele passou o polegar na borda lascada do prato.
— Você consegue me contar sem achar que toda pergunta minha é um jeito de te prender aqui?
— Vou tentar.
Combinaram que, no sábado de manhã, ela abriria a proposta no computador e os dois fariam as contas que ainda não tinham feito. Na segunda, Cecília pediria a visita e perguntaria pelo início. Caio conferiria suas entregas, sem cancelar nenhuma. Depois que ela conhecesse o lugar, voltariam a conversar na mesa, com o que houvesse para contar.
— Não chama minha irmã ainda — ela disse.
Ele levantou os olhos.
— Não chamei.
Cecília o examinou por um instante.
— Mas chegou perto.
— Muito.
Ela estendeu o pé debaixo da mesa e encostou no dele. Caio deixou o pé ali enquanto terminava de comer.
Quando levantaram, sobrou arroz suficiente para mais um pote. Ele estava procurando a tampa quando Cecília abriu a geladeira.
— Não vai caber.
— A gente come amanhã.
— O problema é esta noite.
Ela tirou a caixa do bolo e a pôs na bancada. A lateral tinha amassado contra um pote de feijão. Caio procurou a faca comprida, mas Cecília já abrira a gaveta.
Retirou duas colheres.
— Prato? — ele perguntou.
— Você vai lavar?
Ele pegou uma das colheres.
Ela dobrou as abas da caixa para fora. Por baixo da cobertura, o bolo tinha três camadas, e a primeira colherada abriu um buraco que expôs o abacaxi. Cecília provou com os olhos fechados, depois enfiou a colher mais fundo.
— Era esse — disse.
Caio comeu ao lado dela, os dois de pé, ainda entre a travessa e as panelas. A cobertura estava fria. Ele só então percebeu quanto queria um pedaço.
Cecília retirou uma flor amarela e colocou no pires onde descansara a colher de cebola.
— Essa não — ele disse.
Tarde. A flor já encostara no caldo.
Ela a ergueu pela ponta, considerou o estrago e levou à boca.
Caio ficou esperando.
— Não recomendo — ela disse.
Ele riu com bolo na boca e teve de se virar para a pia. Cecília lhe deu uma pequena pancada nas costas, depois ficou com a mão ali.
Mais tarde cortaram o restante em pedaços irregulares para guardar em dois potes. Ela segurava a caixa inclinada; ele tentava passar a última fatia sem desmontá-la. A fatia caiu de lado.
— Deixa — Cecília disse.
Raspou com a colher o recheio que ficara no papelão e o depositou sobre o pedaço dele. Caio aproximou o pote para que ela não perdesse nada no caminho.