Ir para o conteúdo
ContosFicção

A reserva das oito

Conto de ficção original: dois anos depois da separação, Marina e César voltam a um restaurante conhecido. Entre um pedido antigo e as fotos de uma casa, há uma proposta a considerar.

Equipe ConfidenteX9 min de leitura

Marina chegou ao restaurante às sete e quarenta e três e deu uma volta desnecessária entre as mesas antes de aceitar a que o garçom lhe indicava. Aos quarenta e cinco anos, ainda precisava de alguma coisa para fazer com as mãos quando estava nervosa. Tirou o casaco, tornou a vesti-lo, deixou apenas a bolsa na cadeira.

— A reserva das oito — disse. — No nome de César.

Não disse meu marido. Dois anos depois da separação, já não precisava se corrigir. Mas era a primeira vez que voltava ali para discutir se aquele homem poderia tornar a ser seu marido, e a palavra lhe ocorreu inteira, com a facilidade inconveniente das coisas muito usadas.

O garçom abriu um sorriso.

— O filé com molho à parte? E as batatas bem passadas?

— Você lembra?

— Da batata eu lembro.

Ela riu. O homem deixou o cardápio e foi buscar água.

Tinham levado quarenta minutos para conseguir aquelas batatas. César pedira que viessem mais douradas; da segunda vez, mais um pouquinho; na terceira, recebera seis pequenos objetos castanhos sobre uma travessa enorme. Marina alinhara um deles junto à faca e perguntara se servia para escorar a mesa. César tentara responder com a boca cheia, desistira e acabara rindo tanto que o garçom viera saber se havia algum problema. Naquela noite, tinham atravessado o estacionamento abraçados, ainda discutindo a possível utilização das outras cinco.

Marina encontrou as batatas no cardápio. Agora eram servidas com alecrim.

Às sete e cinquenta e oito, César parou junto à mesa. Estava com o cabelo mais curto do que nas fotografias e uma camisa verde que ela não conhecia. Aos quarenta e sete, continuava tendo um jeito meio sério de se apresentar às ocasiões importantes, até que o sorriso o desmentia.

— Você chegou cedo.

— Eu podia dizer o mesmo.

Ele se inclinou para beijá-la no rosto. Marina virou um pouco a cabeça; o beijo caiu perto demais da boca para ser distraído. César demorou a puxar a cadeira.

— Está bonita.

— Eu sei. Demorei.

Ele riu, e ela gostou de ter conseguido aquilo logo no começo.

O garçom voltou. César também o reconheceu e perguntou pelas batatas.

— Já conversamos sobre elas — Marina disse.

— Espero ter sido bem representado.

— Ficou faltando a sua defesa.

Pediram peixe para ela, filé para ele e uma porção de batatas para dividir. O molho veio a ser discutido, mas apenas entre César e o garçom. Marina bebeu água enquanto os dois resolviam o assunto.

Quando ficaram sozinhos, César pousou o celular junto ao prato, com a tela para cima.

— Trouxe as fotos.

Ela sabia quais. Na terça-feira ele lhe telefonara: o contrato do apartamento terminava em janeiro, havia encontrado uma casa térrea perto da praça, queria que ela fosse vê-la. Não para dar opinião. Para morarem juntos outra vez. Sugerira que começassem se encontrando aos fins de semana e decidissem sobre a casa até dezembro. Marina pedira que conversassem pessoalmente antes de marcar qualquer visita.

César abriu a primeira imagem. Um portão azul, baixo. A sombra de uma árvore atravessava a calçada.

— Tem dois quartos. E esse cômodo nos fundos, separado.

Passou o dedo pela tela.

— Daria para o seu trabalho.

Marina aproximou o celular. A janela dos fundos era larga. Havia uma pia no canto e manchas de umidade perto do rodapé.

— Eu ia precisar de uma mesa comprida.

— Cabe.

Ela ampliou a fotografia com dois dedos. César esperou. Por alguns segundos, Marina pôs ali uma mesa, as luminárias, os tecidos que agora ocupavam metade da sala do seu apartamento. Pôs também César aparecendo à porta com uma xícara. A imagem era tão fácil que ela devolveu o telefone.

— É uma casa boa.

— Não precisa ser essa.

— Eu sei.

Ele passou o polegar pela borda do aparelho.

— Também não estou pedindo que você entregue seu apartamento amanhã.

— Eu entendi a proposta, César.

Ele assentiu. A voz dela saíra mais dura do que pretendia.

— Desculpa — disse Marina. — Eu entendi. Estou tentando responder à proposta que você fez.

As entradas chegaram, embora nenhum dos dois tivesse muita fome. César partiu um pão e empurrou a metade maior para ela. Marina pegou a menor.

— O aluguel do meu também vence em janeiro — disse.

Ele levantou os olhos.

— Vou renovar por seis meses. Depois quero passar um tempo fora. Já falei com a Lídia sobre dividir o ateliê dela enquanto estiver lá.

— Fora onde?

— Perto do mar. Na cidade dela.

— Você falou que estava pensando.

— Estava. Agora estou vendo como fazer.

César afastou um pouco o prato de pão.

— Por quanto tempo?

— Três meses. Talvez mais. Quero experimentar trabalhar de outro lugar.

— Eu podia ir nos fins de semana.

Marina olhou para a mão dele, pousada na mesa. Conhecia a pequena cicatriz junto ao polegar. Teve vontade de cobri-la com a sua.

— Podia — respondeu.

César voltou a respirar com mais folga.

— A gente começa assim. Depois você volta e…

Ele parou por conta própria.

Marina pousou a mão sobre a dele.

— Não sei se volto para morar aqui.

O garçom se aproximou com os pratos. Os dois retiraram as mãos para abrir espaço. A travessa de batatas ficou entre eles, douradas na medida exata.

— Agora acertamos — disse o homem.

— Levou alguns anos — César respondeu.

Marina riu, mas uma outra noite lhe veio antes que provasse a comida.

Na mesma mesa, ou numa muito parecida, ela desenhara no verso de uma comanda a disposição de um ateliê que queria alugar. César virara o papel para si, calculara o aluguel, a pintura, a luz. Tinha razão sobre os números. Ela se lembrava disso com irritação e, ao mesmo tempo, lembrava dele tirando a caneta do bolso com empenho, disposto a fazê-la caber naquela conta. Saíram sem sobremesa. Em casa, ele pregara o desenho na geladeira; Marina o retirara na manhã seguinte para anotar um telefone. Nenhum dos dois perguntara pelo papel.

Agora César cortava o filé em pedaços pequenos demais.

— Eu não estou fazendo conta — disse ele, como se a tivesse acompanhado.

Ela ergueu o rosto.

— Não achei que estivesse.

— Mas ficou me olhando daquele jeito.

Marina soltou a mão do garfo.

— Eu gostei da janela. Já pus minha mesa lá dentro.

O sorriso dele apareceu e desapareceu antes de se completar.

— E?

— E eu não quero desfazer a outra coisa.

Durante algum tempo comeram. Da mesa ao lado veio uma discussão animada sobre quem ficaria com o último bolinho. César ofereceu as batatas; Marina pegou duas.

— Eu quero uma casa com você — ele disse afinal. — Jantar sem marcar encontro. Comprar fruta sabendo que alguém vai comer a outra metade.

— Você pode comprar menos fruta.

Ela se arrependeu antes de acabar.

Mas César sorriu.

— Posso. Estou comprando. Não era bem esse o ponto.

— Eu sei.

Marina deixou o garfo no prato. A camisa verde ficava bem nele. Queria dizer isso sem que parecesse uma compensação mesquinha pelo resto.

— Eu pensei em te propor continuar saindo — disse. — Cada um na sua casa. Eu viajando, você indo quando desse. Pensei mesmo.

— Você ia gostar?

— Ia.

Ele olhou para a janela, depois para ela.

— Eu ia passar todos os domingos esperando você deixar uma escova de dentes.

Marina apertou os lábios. César conhecia aquela expressão e baixou os olhos para lhe dar tempo.

— E eu ia começar a esconder a escova para você não achar que era uma promessa.

Ele assentiu devagar.

O garçom veio retirar os pratos. Perguntou pela sobremesa e César olhou para Marina, sem responder por ela.

— Quero o pudim — disse.

— Dois? — perguntou o garçom.

César demorou um instante.

— Para mim, café.

Enquanto esperavam, ele lhe perguntou pelo trabalho que estava fazendo. Marina contou de um vestido cujo forro insistia em aparecer, de uma cliente que queria bolsos enormes sem alterar o caimento. César quis saber se isso era possível.

— Tudo é possível até a pessoa pôr o telefone no bolso.

Ele riu. Marina terminou de contar. Não era uma conversa para preencher o tempo; ela queria chegar à parte em que a cliente trouxera o telefone para a prova, junto com a carteira e um molho de chaves. César a ouviu até o fim.

O pudim veio com calda demais. Marina ofereceu uma colherada, e ele aceitou. Depois ela lhe disse que a camisa era bonita.

— Comprei para hoje.

Ela olhou de novo.

— Fez bem.

Dividiram a conta. À porta, César segurou o casaco enquanto Marina procurava a manga, e ela se encostou nele por um segundo a mais que o necessário. A rua estava fresca. Os carros dos dois ficavam em direções opostas.

— Posso te abraçar? — ele perguntou.

Marina respondeu chegando perto. O rosto dele encontrou seu cabelo; ela fechou a mão nas costas da camisa nova. Nenhum dos dois tentou reduzir o abraço a uma coisa rápida.

Quando se afastaram, Marina tocou a lateral do rosto dele e o beijou. Um beijo breve, na boca. César manteve a mão em seu braço até ela dar um passo para trás.

— Boa noite, Marina.

— Boa noite.

Ele caminhou primeiro. Perto da esquina, virou-se e ergueu a mão. Ela ainda estava diante do restaurante e respondeu do mesmo jeito.

No carro, Marina ficou sentada sem ligar o motor. O telefone marcava dez e dezenove. Abriu a conversa com Lídia. Havia uma fotografia do ateliê e uma mensagem sobre a mesa que precisariam dividir. Marina ampliou a imagem: ao lado da janela, um armário impediria a passagem dos tecidos.

Gravou uma mensagem.

— Eu vou. Amanhã te ligo para a gente acertar as datas. E não vende esse armário ainda. Acho que ele cabe na outra parede.

Ouviu antes de enviar. Sua voz estava um pouco rouca. Enviou assim mesmo.

Em casa, tirou os sapatos e foi buscar a mala em cima do guarda-roupa. Ainda faltavam meses; precisava saber o tamanho. Levou-a para a sala, afastou os tecidos e abriu as duas partes sobre o tapete. O forro tinha um rasgo junto ao zíper.

Marina acendeu a luminária da mesa. Escolheu uma linha vermelha, enfiou a agulha e se sentou no chão, com a mala aberta entre os joelhos.