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ContosFicção

O aplauso do ensaio

Conto de ficção original: casados há décadas, Vera e Otávio ensaiam uma separação no teatro amador. Uma fala improvisada faz a sala rir — e muda a noite dos dois.

Equipe ConfidenteX9 min de leitura

Vera segurava a perna da mesa enquanto Otávio enfiava debaixo dela a terceira dobra de um programa velho. A mala da separação estava aberta sobre duas cadeiras de plástico. Dentro, para dar volume, havia um escorredor de macarrão e três toalhas do salão.

— Agora solta — ele disse.

Ela soltou. A mesa inclinou para o outro lado.

— Melhorou — disse Otávio. — Agora cai para você.

Da primeira fila, Lídia pediu que terminassem o casamento antes das dez. A chave do salão tinha de ser entregue na padaria, e o padeiro não respeitava a duração das artes.

Vera ergueu a mala. O escorredor bateu na fivela.

— Isso vai fazer barulho na apresentação?

— Só se você abandonar o lar com muita convicção.

Ela riu, apesar de estar decidida a não rir mais das graças dele durante aquela cena. Aos cinquenta e três anos, depois de vinte e nove de casamento, ainda ria antes de avaliar se queria. Otávio, de cinquenta e cinco, confiava nisso um pouco além da conta.

O grupo de teatro amador ensaiava havia dois meses. Vera tinha se inscrito primeiro; Otávio fora buscá-la numa quinta-feira, lera as falas de um ator gripado e, na semana seguinte, recebera um personagem, uma pasta e a obrigação de trazer extensão.

— Do começo — pediu Lídia. — Vera, você está indo embora. Não está levando uma encomenda.

Vera voltou à marca de fita no chão. Fechou a mala com o joelho, pousou-a junto da porta desenhada num biombo e olhou para o marido.

— Deixei o café no armário de cima.

Otávio tinha de responder: “Eu sei onde fica o café.” Era uma fala pequena, seguida de um silêncio que ainda não tinham conseguido acertar.

Ele apoiou as duas mãos na mesa.

— E deixou uma lista explicando como eu alcanço?

O rapaz da iluminação soltou uma gargalhada. Lídia riu com o lápis encostado nos dentes. Até Vera começou a abrir a boca naquele movimento antigo de acompanhá-lo. Depois apertou a alça.

Otávio esperou que o riso acabasse. Conhecia o tamanho dessa espera. No almoço de aniversário dela, diante dos irmãos, dissera que Vera fazia lista até para sonhar: primeiro dormir, depois verificar se estava dormindo direito. Ela lhe pedira, ao lavar os copos, que arranjasse outro assunto.

— Continua — disse Lídia.

Vera olhou para o biombo.

— Qual é a minha fala?

Otávio tentou ajudá-la:

— “Você nunca…”

— Eu sei.

A mala bateu no chão mais forte do que devia.

Fizeram o resto. Vera atravessou a porta sem virar o rosto; Otávio ficou junto da mesa, com a mão pousada no programa dobrado. Lídia achou a saída ótima. Pediu apenas que, no sábado, não derrubassem o biombo.

Atrás da cortina, Vera abriu a mala e retirou o escorredor. Uma das alças tinha prendido na toalha. Ela puxou.

— Se rasgar, vão descontar do nosso cachê — disse Otávio.

Vera continuou puxando.

— Nosso cachê é uma esfiha.

— Eu ouvi.

Ele se abaixou para soltar o tecido. Ela afastou a mala.

— Você podia ter me avisado que ia mudar.

— Saiu na hora.

— Sai sempre.

Do outro lado da cortina, alguém experimentou três notas de uma música e desistiu na quarta.

Otávio baixou a voz.

— Era a personagem. Ela deixa o marido e ainda quer explicar onde está o café.

— Você olhou para eles.

— Como?

— Depois da lista. Você olhou para ver se estavam rindo.

Ele passou a mão na nuca. Havia um pouco de pó branco na manga da camisa, da parede em que se encostara.

— Estavam.

— Eu percebi.

Vera conseguiu desprender a toalha. Dobrou-a uma vez, desdobrou e tornou a dobrar pelo outro lado.

— Pedi uma coisa no meu aniversário.

— Eu lembro.

— Parecia que não.

Otávio pegou o escorredor e ficou com ele nas mãos, sem ter onde pôr.

— Você também fala de mim na frente dos outros.

— O quê?

— Quinta passada. Eu estava lendo e você disse que, lá em casa, a fala mais comprida que eu tinha era perguntar se havia pão.

Vera olhou para a cortina. Lembrava-se de ter dito. Lembrava-se, sobretudo, do alívio de fazer o grupo rir sem precisar da ajuda dele.

— Aquilo foi uma brincadeira.

Otávio ergueu um pouco o escorredor. Ela desviou os olhos antes de sorrir.

— Está bem — disse. — Aquilo também foi.

— Eu não sou bom nisso aqui como você.

— Você acabou de fazer todo mundo rir.

— Pois é.

Uma mulher apareceu procurando o vaso do segundo ato. Os dois olharam para o escorredor. Ela disse que aquele não servia, embora estivesse quase desistindo de exigir tanto, e sumiu.

Vera sentou na caixa dos figurinos.

— Eu estava conseguindo fazer a cena.

Otávio encostou o escorredor no chão.

— Eu sei.

— Não. Você ficou esperando a sua vez de fazer graça.

Ele abriu a boca. Vera esperou a resposta, já com outra pronta, mas ele foi até a mesa dos objetos e começou a tirar as pilhas de uma lanterna. Uma delas caiu e rolou para debaixo da caixa onde ela estava sentada.

Vera levantou os pés. Ele recuperou a pilha e tornou a colocá-la na lanterna.

— É para tirar ou para pôr? — ela perguntou.

— Não sei mais.

Por um momento, quase riram juntos. Vera se levantou antes.

No carro, Otávio perguntou se ela queria comer alguma coisa. Ela disse que não. Quando passaram pela lanchonete, disse que queria, mas não queria que ele achasse que estava tudo bem porque ela queria um sanduíche.

Ele estacionou.

Comeram no balcão. Otávio tirou o tomate do seu pão e o deixou no prato dela, como fazia havia anos. Vera comeu uma fatia. Devolveu a outra.

Na quinta-feira seguinte, chegaram separados. Vera vinha de casa com uma mala menor, emprestada da vizinha. Otávio tinha ido direto do trabalho. Ela o encontrou ajoelhado no palco, segurando a perna da mesa entre os joelhos.

— Não põe essa mala em cima ainda. A cola está fresca.

Havia quatro calços de madeira ao lado dele, numerados a lápis. Vera reconheceu a letra miúda com que ele marcava os potes no congelador quando fazia comida para a semana.

Na primeira fila estava a pasta dele. Ela foi deixá-la longe da cola e viu a página aberta.

A fala da lista tinha sido escrita na margem, depois riscada até furar um pouco o papel. Mais abaixo, junto de “Eu sei onde fica o café”, Otávio desenhara um par de óculos. Na página seguinte havia uma mala, uma seta e, em letras apertadas: “não olhar para Lídia”.

Vera virou a folha. Suas próprias falas estavam sublinhadas em azul.

— É para eu não entrar antes de você terminar — ele disse.

Ela fechou a pasta.

— Podia ter me pedido para passar o texto em casa.

— Você passa até quando eu estou só procurando uma palavra.

Vera começou a dizer que ajudava. Ficou ajeitando a quina da pasta contra a borda do assento.

Otávio apertou o calço no lugar.

— Eu gosto quando eles riem. Fico sabendo que alguma coisa deu certo.

— Eu também gostei, naquela quinta. Quando falei do pão.

Ele assentiu sem levantar a cabeça.

— E tinha pão — disse. — Eu tinha comprado.

Vera pousou a pasta.

— Tinha.

Lídia chegou com um vaso de plástico e anunciou que agora só faltava o teatro.

Recomeçaram pela cena da separação. Vera levantou a mala nova depressa demais: vazia, era muito mais leve que a outra. Teve de refazer a entrada. Otávio esperou sobre a marca, sem aproveitar a ocasião.

— Deixei o café no armário de cima.

Ele tocou a borda da mesa. Ela não se moveu.

— Eu sei onde fica o café.

A frase saiu baixa. Vera tinha preparado uma pausa ofendida. Diante dele, com aquela mão sem trabalho sobre a mesa, demorou por outro motivo.

— Você nunca abre aquele armário.

— Abro quando você não está.

Era a fala do texto. Vera já a ouvira uma dúzia de vezes. Naquela noite, virou a mala de modo que a alça ficasse voltada para a porta e, em seguida, tornou a virá-la. Otávio olhou para o movimento.

Lídia não interrompeu.

Quando chegou a hora de sair, Vera passou pelo biombo. Atrás dele, esperou a última frase, que até então dizia junto com Otávio, sem som, para garantir que ele não esquecesse.

Dessa vez, não mexeu a boca.

— Amanhã eu compro outro.

Houve um silêncio curto. Então Lídia bateu palmas, sozinha, duas vezes.

— Guarda isso.

Otávio olhou para Vera quando ela reapareceu. Ela ainda segurava a mala.

— O quê? — ele perguntou.

— Não sei. Façam outra vez antes que eu invente uma explicação e estrague.

Fizeram. Na segunda vez, ficou pior. Na terceira, o rapaz da iluminação deixou cair um molho de chaves no silêncio. Vera começou a rir, Otávio também, e os dois precisaram se sentar. Lídia marcou o fim do ensaio.

No sábado, havia gente nas três fileiras e duas cadeiras extras perto da porta. O padeiro foi assistir, o que resolveu a questão da chave e criou a do pão de domingo.

Vera espiou por uma fresta da cortina. Otávio estava atrás dela, abrindo e fechando os dedos.

— Quanto deu? — perguntou.

— Vinte e três.

— Você contou?

Ela olhou para ele.

Otávio respirou pelo nariz, devagar. Vera encostou a ponta do sapato na dele.

— Vinte e quatro com o homem que não quer sentar.

Ele espiou também.

— É o do vaso. Está com medo de não devolvermos.

A peça começou. Uma entrada se atrasou; o telefone de cena tocou depois de ser atendido. Na separação, Otávio disse a fala do café sem procurar ninguém nas cadeiras. Vera saiu carregando a mala um pouco afastada da perna, para não bater. Atrás do biombo, ouviu a voz dele até o fim.

Depois voltaram todos ao palco. O aplauso durou o suficiente para que Vera não soubesse o que fazer com o rosto. Curvaram-se fora de hora, duas pessoas de um lado, três do outro. Otávio deu um passo à frente e tornou a recuar, quase pisando nela.

A cortina fechou. Ainda vinham palmas da sala, mas já não podiam vê-los.

Vera olhou para baixo. Um cadarço do sapato dele estava solto. Abaixou-se e fez o laço, apesar do joelho do figurino que pinicava. Ao levantar, encontrou Otávio segurando seus óculos abertos pelas hastes. Ela os tinha deixado no bolso dele antes de entrar.

Ele esperou que ela erguesse o rosto e os pôs no lugar. Uma haste ficou por cima do cabelo. Vera levou a mão para arrumar, mas Otávio já a soltava, fio por fio, com a ponta dos dedos.