A mesa que ninguém reservou
Conto de ficção original: retida num pequeno hotel, Elisa encontra em Raul uma companhia inesperada para o jantar — até uma pergunta mudar o tom da conversa.
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Elisa já estava puxando a cadeira quando a mulher do hotel avisou que aquele lugar recebia a água da goteira.
Ela olhou para cima. Uma gota caiu no prato.
— Então está ocupado.
Do outro lado da mesa, um homem levantou a jarra e o próprio copo, abrindo espaço.
— Aqui só venta.
Elisa arrastou a cadeira até ele. A mulher recolheu o prato molhado, trouxe outro e voltou para a cozinha com o passo de quem precisava alimentar seis pessoas que não deveriam estar ali.
Tinham chegado depois que um barranco cedeu sobre a estrada. O pequeno hotel, dois quilômetros antes do bloqueio, dispunha de quartos, toalhas ásperas e uma única mesa de jantar, comprida demais para a sala. Elisa deixara a mala fechada no quarto. Aos quarenta e um anos, ainda acreditava que não desfazer a mala encurtava uma interrupção.
O homem passou a ela uma folha plastificada. No alto se lia CARDÁPIO; embaixo, três opções tinham sido riscadas com caneta.
— Recomendo o frango — disse.
— Você já comeu?
— Não. Mas foi o único que sobreviveu.
Elisa virou a folha. O verso estava em branco.
— Gosto de um restaurante que não prolonga a dúvida.
— Raul.
Ela ergueu os olhos.
— É outro prato?
— Meu nome. Tenho quarenta e quatro anos e continuo me apresentando na hora errada.
Ela riu e disse o seu. Raul fez menção de estender a mão, mas a mulher voltou com uma travessa, e os dois precisaram recuar para que o frango pousasse entre eles.
Os outros hóspedes passaram a discutir a estrada. Um homem de blusa azul conhecia um desvio; a mulher ao lado conhecia o mesmo desvio e não queria repeti-lo. Na cabeceira, duas viajantes examinavam fotografias do barro nos próprios celulares. Elisa serviu arroz, aceitou a travessa que Raul lhe passou e prestou atenção à pele dourada do frango. Desde o meio da tarde só tinha comido uma bala encontrada no console do carro.
— Vai para onde? — perguntou o homem de azul.
Raul disse o nome de uma cidade. Elisa disse o de outra. O homem calculou os trajetos com o garfo suspenso, encontrou um trecho em comum e propôs que saíssem todos às seis.
— Às seis eu só prometo abrir um olho — Elisa respondeu.
Raul abaixou o rosto para esconder o sorriso. Ela gostou de ter sido compreendida sem precisar olhar diretamente para ele.
O celular vibrou junto ao prato. Na tela, a irmã perguntava: “Quer que eu remarque?”. Elisa apertou o botão lateral antes que viesse o resto. Raul afastou a cesta de pão para que ela tivesse onde pôr o aparelho.
— E você? — ela perguntou. — Vai sair com a expedição?
— Tenho uma coisa às onze. Dá tempo.
— Eu tinha às nove.
— Tinha?
— Agora devo ter às dez.
Ele assentiu e recolheu com o garfo alguns grãos de arroz. Não perguntou o que era. Elisa se surpreendeu preparando uma resposta que ninguém lhe pedira.
A mulher do hotel anunciou pudim. Houve uma animação breve, quase infantil, entre aquelas pessoas que minutos antes faziam previsões sombrias sobre a encosta. Raul examinou o cardápio outra vez.
— Aqui diz frutas da estação.
— A estação mudou — Elisa disse.
Ele riu com a boca fechada. Tinha um dente da frente ligeiramente sobreposto ao outro; ela reparou e voltou ao prato, incomodada por já estar guardando detalhes.
O homem de azul quis saber se Raul viajava a trabalho.
— Não desta vez.
— Melhor ainda.
Raul apoiou o garfo na borda do prato. Elisa viu a mudança no rosto dele, pequena, mas suficiente para que o comentário seguinte ficasse sem lugar. Então ele puxou a travessa para perto e ofereceu a última coxa à mulher ao lado.
Elisa deveria ter deixado aquilo passar. Em vez disso, quando os outros começaram a combinar o horário do café, inclinou-se para Raul.
— E quem ficou em casa deixou você viajar assim, sem data de volta?
Ela tinha pretendido uma brincadeira. Só depois de dizer percebeu que ele não mencionara a duração da viagem.
Raul soltou a travessa.
— Deixou?
— Não foi isso que eu…
— Vou pegar água.
A jarra estava diante dos dois. Ele se levantou mesmo assim.
Elisa alinhou a faca com o garfo. Sentiu vontade de explicar que não costumava fazer perguntas daquela espécie, mas isso lhe pareceu outra forma de exigir que ele voltasse a ser agradável. Quando Raul retornou, ela já tinha afastado sua cadeira alguns centímetros.
— Desculpa. Fiz uma pergunta que não era da minha conta.
— Está bem.
Ele se sentou. Não parecia estar.
O pudim chegou em pratos pequenos. Elisa comeu a ponta da fatia e achou doce demais, embora pudesse ter sido apenas a boca seca. A conversa tomou o rumo das camas, das cobertas extras, do sinal de telefone nos quartos. Uma das viajantes mostrou a foto de um cachorro dormindo numa poltrona. Raul fez uma pergunta sobre o cachorro. Elisa ficou de fora com uma facilidade que lhe pareceu merecida.
Os pratos foram recolhidos. O homem de azul anunciou pela última vez que bateria nas portas às seis. Sua mulher o conduziu para fora segurando-o pelo cotovelo.
Raul estava dobrando o guardanapo quando Elisa empurrou a folha plastificada na direção dele.
— Antes que você vá: o pudim também não consta. Acho que este cardápio pertence a outro hotel.
Ele olhou para a folha. Depois para a porta da cozinha.
— Pode ser uma lista do que eles se recusam a fazer.
Ela soltou o ar pelo nariz, quase um riso. Raul largou o guardanapo.
A mulher apareceu com uma garrafa de café e pediu que apagassem a luz ao sair. As duas últimas hóspedes levaram suas xícaras para os quartos. De repente, a mesa tinha uma extensão absurda: oito lugares vazios, migalhas, o prato sob a goteira. A água caía nele com um som fino.
Raul se levantou. Elisa levou a mão à bolsa.
Mas ele foi até a cadeira onde ela tentara sentar e trocou o prato por uma tigela. Pôs um guardanapo dobrado no fundo. A gota seguinte quase não fez barulho.
— Melhor — ela disse.
— Estava entrando na minha cabeça.
Ele voltou. Dessa vez puxou a cadeira da ponta, ao lado dela.
Elisa deixou a bolsa no chão.
Por algum tempo falaram de hotéis. Ela contou de um quarto em que o interruptor ficava atrás do armário; ele, de uma televisão que só desligava se tirassem o cartão da energia, deixando tudo escuro. Elisa discordou da preferência dele por travesseiros baixos. Raul perguntou quantos ela considerava aceitáveis.
— Para dormir ou para decorar uma cama que eu vou ter de desmontar?
Ele estava sorrindo quando ela percebeu que queria tocar o canto da boca dele. Bebeu o café. Estava quase frio.
— Eu não estou fugindo da minha mulher — Raul disse.
Elisa pousou a xícara.
— Você não precisa responder àquela pergunta.
— Eu sei. Quis responder agora.
Ela esperou.
— Moro sozinho. Há três anos. Amanhã vou encontrar meu irmão.
Ele girou a alça da xícara para o outro lado.
— A gente tinha uma oficina. Eu saí. Não foi uma saída bonita.
Elisa olhou as mãos dele: unhas curtas, uma pequena cicatriz junto ao polegar. Quase perguntou quem ficara com a oficina. Em vez disso, puxou a garrafa de café.
Raul cobriu a xícara com a mão.
— Obrigado. Já chega.
— Faz tempo?
— Dois anos desde a última conversa. Ele me escreveu mês passado. Respondi na quinta.
— E já está indo.
— Demorei vinte e seis dias para escrever três linhas.
Elisa assentiu. A própria irmã tinha recebido dela, naquela manhã, um “a caminho” que levara semanas.
Raul tirou o celular do bolso, olhou a tela apagada e o guardou de novo.
— Ele quer que eu volte a trabalhar lá. Eu disse que a gente podia conversar. Acho que ele entendeu outra coisa.
— Você quer voltar?
— Não.
A resposta veio sem demora. Raul passou a palma sobre uma migalha, prendendo-a no dedo.
— Mas quero ver meu irmão.
Elisa ouviu o ruído da geladeira na cozinha. Havia uma pergunta sobre o motivo da briga, e ela a deixou onde estava.
— Minha irmã está me esperando para esvaziar uma loja — disse.
Ele voltou o rosto para ela.
— De quê?
— Molduras. Era nossa. Ainda é, até sexta.
Elisa segurou a xícara pelas bordas. A loja surgia inteira quando ela dizia aquilo: as amostras na parede, o cheiro da madeira cortada, o rádio que sua irmã nunca sintonizava direito.
— Ela resolveu sair?
— Eu resolvi.
Raul encostou as costas na cadeira.
— Ah.
Elisa gostou daquele espanto pequeno. Quase todo mundo perguntava o que acontecera com a irmã.
— Recebi uma proposta de trabalho. Com horário, salário. Sem fazer conta de vidro quebrado depois do jantar. Disse que ia sair antes de começar a odiar o lugar.
— E começou?
— Não. Essa é a parte chata.
Ela passou o polegar pela borda da mesa, onde o verniz tinha levantado.
— Ainda gosto. Gosto até de uma gaveta que emperra. Mas não quero mais ficar lá. Minha irmã tentou tocar sozinha por seis meses. Agora vamos entregar o ponto.
— Ela está brava?
— Muito educada. Eu preferia brava.
Raul não sugeriu que tudo se acertaria. Elisa sentiu os ombros baixarem um pouco.
O telefone tornou a vibrar. Desta vez ela o pegou. A irmã tinha escrito: “O comprador vem buscar o balcão às dez. Consigo esperar até dez e meia”. Elisa começou a digitar uma explicação sobre a estrada, apagou a metade e escreveu: “Vou estar aí. Deixa a gaveta emperrada para mim”.
Antes de enviar, ficou olhando a frase. Raul esperava, distraído com a dobra do cardápio. Ela enviou.
— Quer dizer alguma coisa e está desistindo? — perguntou a ele.
— Quero perguntar se você aceita mais café. Mas vai parecer que não ouvi nada.
Elisa estendeu a xícara.
— Aceito um pouco.
Ele serviu só o fundo. Ao devolver a garrafa, deixou a mão perto da dela. Elisa encostou o dedo mínimo no dele, um contato tão discreto que poderia ser desfeito sem explicação. Raul virou a mão. Ela colocou os dedos sobre a palma aberta.
Ficaram assim até o celular iluminar de novo. A irmã respondera: “Só você sabe abrir aquela droga”. Elisa riu. Não mostrou a mensagem; guardou o aparelho na bolsa.
— Boa notícia? — ele perguntou.
— Uma gaveta.
Raul franziu a testa, e ela riu outra vez.
Depois ele contou como havia aprendido a consertar bicicletas antes de saber andar direito numa. Elisa falou do primeiro quadro que emoldurara, torto, pendurado por meses na própria sala porque ela não suportava desperdiçar o material. A mão dele continuou sob a sua enquanto a conversa perdia a obrigação de chegar a algum assunto.
Quando se levantaram, os joelhos de Elisa estavam duros. Ela soltou a mão dele para espreguiçar os dedos; Raul pegou as xícaras e as deixou junto à porta da cozinha.
No interruptor, ela esperou que ele atravessasse a sala. Queria beijá-lo. A vontade vinha acompanhada da consciência ridícula de ter gosto de café requentado na boca.
Raul parou perto dela.
— Posso?
Ela segurou de leve a frente do suéter dele e o trouxe para perto. O beijo fez a pergunta parecer distante. Quando se afastaram, Elisa ainda tinha o tecido entre os dedos.
— Seu quarto é para lá? — ela perguntou.
— Para lá.
O dela ficava do outro lado da escada. Ela soltou o suéter e alisou a pequena dobra que fizera.
— Então boa noite, Raul.
— Boa noite, Elisa.
Ela apagou a luz. No escuro, esbarrou na ponta da mesa, e os dois riram baixo antes de seguir em direções diferentes.
Às seis, alguém bateu numa porta do corredor. Elisa abriu um olho, conforme prometera, e tornou a fechá-lo. Quando desceu, pouco depois das sete, a mulher do hotel estava ao telefone, repetindo a um hóspede que tinham liberado a passagem. Pela janela, Elisa viu o carro de Raul ainda estacionado.
Ele estava à mesa. O cabelo úmido, a mala junto aos pés. A goteira parara; no lugar da tigela havia um pote de geleia.
— Bom dia — ele disse.
Elisa respondeu enquanto se servia de pão. À luz da manhã, a intimidade da véspera pareceu por um instante algo que precisariam confirmar. Ela passou manteiga com atenção excessiva.
— Falei com meu irmão — Raul disse. — Vamos almoçar. Fora da oficina.
— Ele topou?
— Perguntou se eu estava rico.
— E você?
— Disse que cada um paga o seu.
Elisa sorriu. Olhou o relógio. Daria tempo de chegar antes do comprador do balcão, se saísse dali a vinte minutos. Pôs uma segunda fatia de pão no prato.
Raul afastou a mala com o pé.
— Quer tomar café comigo antes de ir?
— Quero. Tenho vinte minutos.
Ele puxou a cadeira ao lado. Elisa se sentou e, antes de pegar a xícara, passou a mão sob a mesa para encontrar a dele.