Café antes da primeira fornada
Conto de ficção original. Antes de abrir a padaria, Teresa recebe um amigo de infância com um envelope e uma conversa ensaiada. As caixas por montar não estavam nos planos dele.
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A terceira caixa abriu pelo fundo quando Teresa tentou levantá-la. Ela segurou os pães doces contra o peito, amassando o avental, e empurrou a caixa com o cotovelo para cima da bancada. Do lado de fora, alguém bateu no vidro.
— Está fechado.
A pessoa bateu de novo, agora mostrando a palma vazia.
Teresa reconheceu Augusto pela inclinação da cabeça. Apontou para a porta lateral e esperou que ele a encontrasse, sem largar os pães.
— Pega aquela bandeja. Não, a de baixo. Esta está molhada.
Ele obedeceu. Teresa despejou os pães na bandeja, examinou um a um e separou dois cuja cobertura ficara no avental.
— Caixa nova — disse. — Comprei duzentas.
Augusto apertou uma das abas soltas.
— Posso ver?
— Pode montar. Ver eu já vi.
Ele tirou o casaco e procurou onde deixá-lo. Teresa indicou um gancho junto à porta, depois a pia. Enquanto ele lavava as mãos, ela conferiu os pedidos presos numa prancheta. Faltavam vinte minutos para abrir; a primeira fornada de pão francês ainda estava no forno, e os doces assados mais cedo precisavam sair dali em seis caixas que se recusavam a ser caixas.
— Você continua mandando igual — ele disse.
— Hoje estou até delicada.
Aos quarenta e nove anos, Teresa tinha aprendido a reconhecer pelo ruído quando alguma coisa caía na cozinha. O pequeno estalo atrás dela era papelão, não louça. Não precisou se virar.
— Dobra a aba comprida primeiro.
— Quando a gente fazia cabana no quintal da sua mãe…
— A cabana não precisava entregar três dúzias de roscas.
Ele se calou. Ela olhou por cima do ombro: Augusto segurava a caixa contra a luz, com os óculos na ponta do nariz. Aos cinquenta e um, precisava deles para descobrir um encaixe que, antes, teria tentado resolver com força. Desdobrou o fundo e recomeçou.
Teresa voltou à prancheta, mas já não leu a linha seguinte.
Tinham se visto pela última vez nove anos antes, numa mesa de plástico onde ele deixara esfriar um café. Augusto precisava completar o dinheiro de uma mudança. Havia trabalho esperando em outra cidade, um quarto alugado, a passagem comprada; faltava a quantia que ele só conseguiu pedir olhando para a colher. Teresa fizera a transferência no celular. Depois perguntara se queria mais café.
Agora ele depositou uma caixa pronta diante dela.
— Testa.
Ela apoiou a mão dentro e pressionou. O fundo resistiu.
— Essa serve.
Augusto puxou outra. A manga do casaco pendurado roçava o chão. Ele a ergueu e prendeu no gancho antes de continuar.
— Eu vim por uma coisa — disse.
Do bolso de trás tirou um envelope pardo, bastante liso. Teresa ficou olhando para ele com a pinça dos doces na mão.
— Põe longe da comida.
Ele o deixou na ponta da bancada, junto à prancheta.
— Está tudo aí. E uma diferença pelo tempo.
Teresa pousou a pinça, limpou as mãos e abriu o envelope. Contou as notas. Augusto acompanhava os dedos dela como se estivesse sendo contado também.
— Quanto é essa diferença?
Ele disse.
Ela separou a quantia e a estendeu.
— Isso a gente não combinou.
— Nove anos, Teresa.
— Eu sei fazer a conta.
Ele recebeu as notas. Ficou com elas na mão até ela apontar com o queixo para o bolso.
— Vai cair no chão.
Teresa guardou o envelope na bolsa, dentro do armário, e tornou a pegar a pinça. Augusto continuava parado.
— As caixas — ela lembrou.
Trabalharam algum tempo ouvindo apenas o papelão ceder nos vincos. Ele começou a acertar o fundo na primeira tentativa. Ela encheu duas caixas, marcou os pedidos e alinhou as etiquetas viradas para a porta.
— Eu tinha pensado em tanta coisa para falar — Augusto disse.
— Enquanto montava caixa?
— Ontem, no ônibus.
— Você está morando onde?
— Moro a quatro ruas daqui. Desde fevereiro.
A pinça parou acima da bandeja.
— Estamos em outubro.
— Eu passava na esquina. Às vezes via você.
Teresa colocou a última rosca na caixa, devagar, para não encostar a cobertura na tampa.
— Podia ter entrado.
— Sem trazer isso?
Ela largou a pinça de novo.
— Eu mandei uma foto quando pintei a frente. Você respondeu com um polegar.
Augusto alisou uma aba que já estava lisa.
— Achei que você estivesse me lembrando.
— Da dívida?
Ele assentiu.
Teresa olhou para a parede atrás dele. Ainda havia ali uma pequena mancha da tinta verde, no alto do batente, onde a fita de proteção descolara.
— Eu queria saber se tinha ficado bom.
Augusto pousou a caixa inacabada.
Ela foi buscar duas xícaras. A garrafa de café estava num canto estreito, entre uma lata de canetas e o rádio desligado. Serviu a dele sem açúcar e, antes que entregasse, Augusto falou:
— Agora eu ponho meia colher.
Teresa deixou o açucareiro perto da xícara.
— Então põe.
Ele mediu com atenção. Ela bebeu em pé, apoiada na quina da bancada, enquanto o forno estalava atrás dos dois.
— No dia em que você me emprestou — disse Augusto —, eu estava preparado para explicar tudo. Até levei num papel quanto ia ganhar.
— Lembro do papel.
— Você pôs o celular em cima dele e perguntou do café. Eu passei a viagem toda pensando nisso.
— Em quê?
— Que alguém ainda achava que eu ia dar conta.
Teresa passou o polegar pela alça da xícara.
— E deu?
Augusto começou a responder depressa, depois tomou um gole.
— Daquele emprego, não. Durou sete meses. Fiz entrega, trabalhei num depósito. No segundo ano eu já podia ter mandado uma parte.
Ela esperou.
— Queria mandar tudo. Depois queria chegar bem, contar uma história que prestasse.
— E veio de madrugada para eu não ter tempo de perguntar?
Ele olhou para as caixas.
— Um pouco.
Teresa riu uma vez, sem esconder a irritação.
— Escolheu mal. Olha o tanto que ainda falta.
Ele tornou a pegar a caixa inacabada. Dessa vez não procurou uma lembrança do quintal.
— Hoje eu conserto máquina de costura. Na oficina da rua do Mercado, com mais dois. Alugo uma casa pequena. Tem uma amoreira que suja o corredor inteiro.
— Você gosta?
— Da casa?
— Da sua vida, Augusto.
Ele encaixou o fundo, virou a caixa e pensou.
— De algumas partes. Gosto de descobrir o defeito. Não gosto de jantar ouvindo a geladeira. Comprei um rádio, mas aí fico jantando com raiva das notícias.
Teresa baixou a xícara para esconder um sorriso e desistiu de esconder.
— Esse rádio aqui só pega quando ninguém encosta no freezer.
— Posso olhar.
— Hoje não.
— Está bem.
Ela gostou que ele deixasse o rádio onde estava.
O sinal do forno soou. Teresa calçou as luvas e abriu a porta; Augusto saiu da passagem antes que ela pedisse. A primeira assadeira encheu o espaço entre eles de calor. Ela a acomodou no suporte e puxou a assadeira da segunda prateleira.
— Essa ponta está sobrando — disse, olhando a última caixa.
Augusto desfez a dobra. Não tentou disfarçar o erro.
Teresa tirou as luvas e pegou uma das roscas amassadas.
— Quer metade?
Ele quis. Ela partiu com as mãos; a parte maior ficou com ele.
— Você fazia isso — começou Augusto.
Teresa ergueu os olhos.
Ele mordeu a rosca.
— Está boa.
— Pode lembrar. Só não precisa voltar para lá toda vez.
Augusto limpou um farelo do canto da boca. Havia uma pergunta no modo como a olhava agora, sem pressa de encontrar nela a menina que conhecera. Teresa sentiu vontade de tirar a touca, mas continuava em serviço.
— E você? — ele perguntou. — Gosta da sua vida?
Ela olhou para as seis caixas, finalmente firmes, e para o café que já esfriava.
— Hoje eu queria tomar isso sentada.
Ele puxou o banco debaixo da bancada. Teresa quase aceitou. Então bateram na porta da frente: uma mulher com uma sacola dobrada debaixo do braço, seguida de um homem que consultava o relógio.
— Já vai! — Teresa respondeu.
Pôs a xícara na pia, acendeu a vitrine e ergueu a persiana até o fim. A mulher queria o pedido das seis e meia. O homem perguntou se o pão estava quente. Augusto levou as caixas para o lugar que Teresa indicou e recolheu o casaco.
Ela o viu procurando uma brecha para se despedir. Entregou o troco à mulher, pediu um instante ao homem e atravessou o espaço até a porta lateral.
— Você trabalha hoje à tarde?
— Até as cinco.
— Eu saio às duas. Mas às cinco e meia posso estar naquela praça atrás da oficina. Tem banco ou tiraram?
— Tem.
— Levo café.
Augusto abriu a boca.
— O meu — ela acrescentou. — O seu você leva do jeito que toma agora.
Ele sorriu. Teresa ainda segurava o trinco, embora ele não tivesse tentado sair.
— Cinco e meia — disse Augusto. — Perto da banca fechada.
Do balcão, o homem tornou a perguntar pelo pão. Teresa respondeu sem se virar:
— Saiu agora.
Augusto vestiu o casaco. Já na calçada, tocou o bolso onde guardara as notas devolvidas e baixou a mão.
— Até mais tarde, Teresa.
Ela voltou à bancada. Antes de pegar o saco de pão, puxou o banco para longe da passagem e deixou a própria bolsa sobre ele. Abriu o armário alto, onde guardava as coisas que quase nunca usava, e trouxe para a frente a garrafa térmica pequena.