Libido e ciclo menstrual: o desejo muda ao longo do mês?
O desejo pode variar durante o ciclo, mas não existe uma fase de mais tesão para todo mundo. Entenda os padrões pessoais e os limites do calendário.
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Sim, o desejo sexual pode mudar ao longo do ciclo menstrual, mas não segue um calendário igual para todas as pessoas. Algumas percebem mais vontade de sexo em determinada parte do ciclo; outras não identificam uma oscilação regular. A ideia de que existe uma fase universal de “mais tesão” simplifica uma experiência que varia bastante de pessoa para pessoa.
A distinção útil é entre reconhecer algo que se repete em você e esperar sentir o que uma tabela diz. Perceber mais desejo perto da menstruação, por exemplo, não significa estar contrariando uma regra do corpo. E um mês com esse padrão não basta para prever os próximos.
A média do estudo não é o calendário de cada pessoa
Uma pesquisa publicada em 2023 no Journal of Sexual Medicine acompanhou registros diários de 213 universitárias, com idade média de aproximadamente 21 anos, durante dois ciclos menstruais completos. Não participaram pessoas que usavam contraceptivos hormonais ou outros tratamentos hormonais.
Na média do grupo, apareceu um pequeno aumento do desejo no meio do ciclo. Quando os pesquisadores examinaram as diferenças individuais, porém, encontraram outros desenhos: algumas participantes apresentavam aumento nessa parte do ciclo, outras perto da menstruação, e outras não mostravam mudança cíclica. A média reunia experiências que não eram iguais.
Isso ajuda a entender por que a frase “o desejo aumenta no meio do ciclo” precisa de contexto. Ela pode descrever um resultado médio sem servir como previsão para uma pessoa. Imagine reunir quem percebe mais vontade perto da menstruação e quem percebe o contrário: a curva do conjunto não contará a história completa de nenhuma delas.
O estudo também tem um alcance definido. Foram apenas dois ciclos, em uma amostra de universitárias jovens; o desejo foi avaliado por duas perguntas sobre aumento e diminuição nas últimas 24 horas. Não houve confirmação precisa do dia da ovulação, nem coleta de orientação sexual ou situação de relacionamento. Portanto, seus resultados não estabelecem um padrão para todas as idades e situações, nem permitem aplicar a mesma curva a quem usa contracepção hormonal.
O que muda além da data no calendário
O ciclo envolve alterações hormonais reais. Estrogênio e progesterona variam ao longo dele, e essas mudanças podem acompanhar sintomas menstruais. O ciclo é contado a partir do primeiro dia de uma menstruação até o início da seguinte; sua duração também pode variar entre pessoas e de um mês para outro, como explica o Office on Women’s Health, órgão de saúde dos Estados Unidos.
Mas saber que os hormônios variam não permite concluir quanto desejo alguém terá em cada fase. O calendário marca a passagem do ciclo; não mede a vontade. Também não revela, sozinho, se uma mudança de libido se deve a hormônios, ao estado físico, ao humor ou a uma combinação de fatores.
Na pesquisa com as universitárias, mudanças diárias de humor e energia se associaram às mudanças de desejo mesmo depois de considerar os efeitos do ciclo. Mais felicidade esteve associada a aumento do desejo; baixa energia e humor deprimido, a diminuição. Entre as medidas físicas examinadas, dor nas costas ou articulações também apresentou associação com redução do desejo. São relações observadas, não uma demonstração de que uma dessas experiências causa a outra.
Na prática, duas anotações como “hoje tive pouca vontade e estava sem energia” e “hoje tive pouca vontade, embora estivesse disposta” registram situações diferentes. A data pode ser a mesma em dois ciclos, mas o restante da experiência não precisa se repetir. Por isso, atribuir qualquer oscilação à fase menstrual pode esconder justamente a informação que ajudaria a entendê-la.
Como reconhecer um padrão sem procurar a fase certa
Se essa curiosidade faz sentido para você, um registro breve pode ajudar a comparar experiências. Anote quando o sangramento começou e como percebeu o desejo naquele dia, com palavras simples: ausente, discreto, mais presente que de costume. Acrescente o que chamou atenção no humor, na energia ou no conforto físico. A proposta é descrever o que aconteceu, sem precisar atribuir uma nota ou cumprir uma frequência sexual.
Registre vontade, não apenas relações sexuais. “Tive desejo, mas não transei” é uma informação diferente de “não senti vontade”. Usar somente o número de vezes em que houve sexo mistura interesse com oportunidade e decisão.
Ao olhar mais de um ciclo, procure tanto repetições quanto exceções. Se você percebe mais vontade perto do sangramento em um mês e não no seguinte, preserve as duas observações. Se a mudança reaparece, há um padrão pessoal a explorar; se não reaparece, o registro continua útil por mostrar que aquela primeira impressão não se confirmou. Nenhum dos resultados precisa ser encaixado em uma curva pronta.
Esse tipo de anotação descreve a experiência, mas não identifica por si só sua causa. Tampouco é necessário transformar a observação em tarefa permanente: ela deve responder à sua curiosidade, não criar uma cobrança para sentir desejo.
Desejo não é teste de ovulação
Sentir mais tesão não confirma que você está ovulando, e sentir menos não indica um dia sem possibilidade de gravidez. Mesmo quando alguém reconhece uma oscilação pessoal, o registro da libido não deve ser usado como método contraceptivo ou teste de fertilidade.
A observação da fertilidade para contracepção é outra prática, com regras próprias. O NHS descreve o acompanhamento de temperatura corporal, secreção vaginal e ciclo menstrual, com aprendizado orientado. Um diário de vontade de sexo não substitui esse processo.
O melhor uso do calendário, aqui, é guardar o que você sentiu para poder comparar depois. Ele pode ajudar a formular “tenho percebido essa mudança em mim”; não tem como determinar “hoje eu deveria estar com vontade”.
Fontes consultadas
- Menstrual cycle–driven vs noncyclical daily changes in sexual desire — Jeff Kiesner e colaboradores. The Journal of Sexual Medicine, 2023, 20, 756–765; consulta: 2026-10-12
- Your menstrual cycle — Office on Women’s Health, U.S. Department of Health and Human Services. Atualizado em 13 de janeiro de 2025; consulta: 2026-10-12
- Natural family planning — NHS. Revisado em 9 de fevereiro de 2024; consulta: 2026-10-12